Há poucos dias Lagarto completou 141 anos como cidade, e como é de costume, recebeu várias homenagens de seus cidadãos, de pessoas que ajudaram a construir a cidade (das que ajudaram a destruir também), personalidades e instituições. A Prefeitura de Lagarto, por exemplo, produziu um vídeo pomposo em que a equipe de marketing acertou na mão e foi muito feliz, pelos belos recortes e profissionalismo na confecção do material.

Porém, no mundo real as coisas não são tão bonitas assim. E de antemão quero garantir que não quero com esse texto fazer nenhuma crítica ou reclamação de graça. Antes, minha intenção é ligar um alerta para uma questão de máxima importância acerca do nosso patrimônio histórico, em especial sobre um dos mais representativos: a Cruz das Almas. 

É claro que o vídeo da prefeitura não iria mostrar o verdadeiro estado em que se encontra o monumento; quem viu, se encantou com as três cruzes marcantes aparecendo num fim de tarde, já escuro na região, formando um enquadramento encantador. Mas a verdade é que a construção de meio século, erguida na gestão de José Ribeiro de Souza (Zé Coletor), encontra-se com falhas em sua estrutura, rodeada de entulho e lixo, com o cercado que fica no entorno quebrado, e desgastada pelo tempo. ‘Isso a Rede Globo não mostra!’, ou melhor, não foi o que apareceu na TV Sergipe… Nem eu acho que deveria, em se tratando de uma homenagem, mas enfim, estamos aqui para discutir a realidade das coisas, não é mesmo?

Porém o assunto principal desta coluna, aliás, é sobre como deve ser tratado o monumento histórico. E, contudo, para felicidade de Luiz Antônio Barreto, Monsenhor Daltro, Aníbal Freire e tantos outros nomes proeminentes da nossa terra, o parlamentar Matheus Corrêa (Cidadania), numa atitude nobre e que demonstra comprometimento com a preservação do patrimônio histórico lagartense, protocolou uma indicação ao poder Executivo Municipal para que o marco que representa o surgimento de Lagarto seja reformado. Todavia, reformar seria o termo adequado?

Na indicação, o vereador ainda menciona a necessidade de preservação do monumento como um todo; em seu último pronunciamento na Câmara, Corrêa chegou a solicitar agilidade da gestão na ação, para que as cruzes originais de madeira não sejam trocadas e dessa forma, a identidade e valor das peças sejam preservados. FOTO: Reprodução do Instagram

Como diz o ditado popular, as palavras têm força. Certamente a intenção do vereador é das melhores e digna de elogio, é notório que pela formação e capacidade, o neto do saudoso José Corrêa Sobrinho tem sido, em menos de quatro meses de mandato, um legislador que tem honrado o seu posto. No entanto, não para Matheus, e sim para a senhora Hilda Ribeiro e sua pressurosa equipe, assim como para o altivo povo lagartense, muito humildemente, ofereço a reflexão a seguir sobre a relevância do entendimento entre “reformar” e “restaurar”, quando se trata de uma peça a ser preservada.

Em relação ao tema patrimônio histórico, um dos princípios mais fortes – todos devem saber -, é o da preservação. De modo que um monumento histórico possui inegável status de obra de arte, a atitude de reformar tomada ao pé da letra pelo poder público poderia pôr em risco o presente e futuro da Cruz das Almas. Digo isso porque, havendo uma mudança, mínima que seja na estrutura original da edificação, isso impossibilitaria que ela fosse tombada*, o que seria um grave crime à nossa identidade cultural. Depois, o adequado para o caso seria uma restauração, esta por sua vez, vai restituir o vigor da obra, daria mais valor, e ainda a tornaria apta ao processo de tombamento. 

O patrimônio histórico material da cidade já sofreu estragos, vilipêndios criminosos irreversíveis por não observar esses detalhes. O maior e mais doloroso exemplo é o da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, que por arbitrariedade e prepotência de gestores e más influências políticas, – e olha o verbo nocivo para a preservação – reformaram partes do interior do santuário, inviabilizando o seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Inclusive Lagarto tomou uma vergonhosa chamada na chincha dos fiscais do órgão. É ou não é outro país? 

Dito tudo isso, rogo que a nossa honrada senhora prefeita, tenha compaixão com as nossas Almas e não reforme, interpretando assim que a intenção do nosso eminente edil é que a senhora restaure, a Cruz.