Júlio Modesto Ribeiro, o Julinho, como era carinhosamente conhecido, nasceu no dia 14 de março de 1932, na cidade de Lagarto. Ele era irmão de três ex-prefeitos da cidade, os saudosos José Ribeiro de Souza (Zé Coletor) e Rozendo Ribeiro Filho (Ribeirinho), além de José Raymundo Ribeiro (Cabo Zé), com quem dividiu momentos desde as conquistas do passado, até os seus derradeiros dias de vida. Conquistas estas que se fundem e em muitos casos traçaram a história da Cidade Ternura. 

Jornal “O Lagarto”, mais de 50 anos de existência

Júlio praticamente foi um dos fundadores da imprensa lagartense, se firmando como diretor do jornal “O Lagarto”, que completou 50 anos de existência. Seu Julinho assumiu a direção do periódico a partir de 1985, depois de ninguém mais, ninguém menos que Abelardo Romero, lagartense que foi um dos maiores intelectuais políticos da história do Brasil. (Ninguém melhor que um Ribeiro autêntico para encarar essa responsabilidade). Durante meio século, o periódico manteve um respaldo não apenas dentro da cidade, mas em todo o Estado de Sergipe. Suas páginas eram fermentadas pela efervescência dos debates políticos e pela graça das notáveis colunas sociais.

Nos anos 2000, Julinho viria a ser diretor também do jornal “Imperial”. Nos jornais, ele se destacava nas notinhas políticas, as quais apelidava de “pinga-fogo”, com o prazer típico de quem sabia que tinha descoberto a maestria de uma arte minuciosa e divertida.

Empresário, precursor da vida cultural em Lagarto

Em Lagarto, Julinho ainda foi precursor da vida cultural do município, foi dono do Cine Pérola (hoje prédio da Caixa Econômica Federal), casa de shows e espetáculos, que fez bastante sucesso na década de 60. Por lá se apresentaram nomes como o Rei do Baião, Luiz Gonzaga e tantos outros.

O jornalista também se destacou como empresário, chegando a ter uma padaria em Lagarto. Também foi dono de um dos maiores restaurantes de Salvador. Além disso, Júlio Ribeiro era um apaixonado por carros. Ao lado do seu irmão, o também jornalista José Raymundo Ribeiro, o Cabo Zé, foi o responsável por trazer à Cidade Ternura os modelos Simca Chambord, sucesso automobilístico da época.

O Ribeiro que não gostava de política

Apesar de ser membro da família Ribeiro, muito influente na política sergipana, Julinho nunca se candidatou, não era mesmo a sua praia, e tanto sabia disso, que nunca fez questão de concorrer a algum cargo eletivo. Mas no ano passado, quando convidado pelo seu sobrinho Jorge Ribeiro Prata (PODE) para ser vice-prefeito da chapa, aos 89 anos, seu Julinho aceitou o desafio.

Seu Julinho não gostava mesmo era da política partidária. Tinha aquela insatisfação de todo o brasileiro honesto com a classe política, e do que gostava mesmo era de aproveitar a vida. Mas para acompanhar o retorno do irmão, Cabo Zé, às disputas eleitorais e honrar a homenagem de seu sobrinho, Jorge, adentrou numa campanha que foi muito sadia e honesta.

Tive a honra de marchar na última eleição com essa chapa histórica, e como não podia ser diferente, seu Julinho era diversão garantida. Era um sujeito carismático. Certas tardes, chegava no comitê central e nos trazia deliciosas cocadas, as quais o meu amigo e colega de trabalho na campanha, o poeta Henrique Andrade, eu e até o próprio candidato Jorge Prata, dávamos conta de saborear prontamente, sem falar no mingau de puba e arroz doce depois de um dia de panfletagem e corpo a corpo com o eleitorado, que seu Julinho fazia questão de pagar.

Aos quase 89 anos, Julinho subiu e desceu a Ladeira do Rosário distribuindo os planos de governo e santinhos de sua chapa. Era um lagartense com uma história gigantesca dentro da cidade, guardava muitas memórias, as de sua mãe, as dos jornais, as do Cine Pérola, das belezas lagartenses que admirava, e tantas outras dentro e fora dessa terra papa-jaca. Mas nada era maior do que sua simplicidade, homem de sucintas palavras, fazia jus aos seu sobrenome Modesto. Na política, foi mais Modesto do que Ribeiro e com o seu jeito inspirou a todos.

Júlio Ribeiro nos deixou este mês, em que se comemora o aniversário de Lagarto. Certa vez, numa reunião importante com lideranças políticas do município na pré-campanha, Julinho fez questão de utilizar uma já combalida, mas imponente camisa antiga dos tempos de redação do “O Lagarto”. Para um jovem redator como eu, aquilo causou grande impressão, era como se fosse a sua armadura, seu orgulho, aquilo tinha uma representatividade: era o Quarto Poder na mesa, o que me faz pensar que em tempos de crise da profissão o jornalismo precisa se reafirmar na sociedade, inclusive em Lagarto. Julinho me deixou essas coisas, lembranças e uma espécie de liderança da simplicidade.

Em memória de Júlio Modesto Ribeiro

*14/03/1932 – 10/04/2021