Parece meio cínico fazer uma publicação a quem acaba de morrer, porque muita gente pode questionar: por que não escreveu quando a pessoa estava viva?

Eu nunca tive intimidade com George e Dudu, já devo ter mencionado eles em alguma conversa, já me encontrei com eles diversas vezes, já rimos de alguma situação rotineira, e foi só isso. Mas isso já diz muito.

A Auto Escola Lagartense fez parte da trilha da minha adolescência, porque eu tinha um sonho de dirigir e de ter uma habilitação. E como eu moro na mesma rua da Auto Escola, era inevitável não ver, mesmo que de longe, o prédio de cor amarela na esquina da Presidente Vargas com a Zacarias Júnior. Umas das esquinas mais movimentadas de Lagarto.

E como foi também o sonho de muita gente tirar uma habilitação, como todo mundo sabia dessa parceria de amizade e companheirismo nessa sociedade e como a COVID-19 não deu trégua e resolveu levar os dois amigos sócios de uma só vez, torna clara pra mim a razão dessas partidas comoverem tanto a cidade.

George Abreu de Souza e Eduardo Dias da Silva foram amigos de adolescência e se tornaram irmãos de alma. Trabalharam como instrutor nessa mesma empresa e logo se tornaram sócios proprietários. Há 16 anos se consolidaram e elevaram a Auto Escola Lagartense como pioneira no seguimento em Sergipe.

Já me atrapalhei várias vezes com o nome deles. E toda vez que passava pela calçada, e acenava com o mão, com esse meu jeito meio doido, gritava. Por diversas vezes chamei Dudu de George e George de Dudu, e tava tudo certo. Porque pra mim um era o outro.

Em fevereiro Dudu sentiu os sintomas da Covid, George o levou até o hospital em Aracaju. Nada grave no começo. Mas com alguns dias a situação se agravou, Dudu se internou e George passou a se reversar entre cuidar do amigo e tocar a empresa. Pouco tempo, George testou positivo e precisou se internar também. Os amigos nunca se separaram, nem no leito do hospital.

Já escrevi sobre o tema da morte há alguns anos no livro Um lugar para respirar, quando acompanhei pacientes numa fila de transplante pulmonar. E descobri que não há nada mais surreal do que o amor e a morte.

Internados, eles passaram a se comunicar, com autorização médica, por mensagens no Watizap. Estavam no mesmo hospital. Um no primeiro andar e o outro no terceiro. O concreto do complexo hospitalar o separavam, mas jamais poderia separar o amor desses dois irmãos. Ali eles começaram a lutar pela vida como um ringue louco.

Com a respiração já debilitada de ambos, trocaram mensagens de áudios, por mensagens escritas. Dudu parou de responder as mensagens, o que causou estranheza para o amigo George. Antes de ser intubado, Dudu fez um pedido: “Cuidem do meu irmão “, pediu aos médicos. Com a notícia do amigo intubado, George piorou drasticamente. Os olhos verdes boiaram de lágrimas.

As esposas de Dudu e George, respectivamente Soane e Mônica, estiveram juntas o tempo inteiro. Nessa batalha de vida e morte, o amor prevalecia.

Há quem se sensibilize com o fato de George ter partido antes, porque não aguentaria ver seu irmão morrer. Essa sua partida, é como se George tivesse dado uma chamada ao parceiro: “irmão, o sol aqui é tão bonito… vem pra cá, aqui a gente ver o jogo do Flamengo e podemos lembrar da feijoada de Nilma nas sextas”, sentenciou.

E como as segundas-feiras eram mais agitadas na Auto Escola, eles preferiram partir exatamente numa segunda. Depois do almoço. Um no dia 15 de março, e o outro 28 dias após.

Sinto que quando eu passar pela calçada da Auto Escola, vou olhar desconfiado para as paredes amarelas, porque minha vida inteira me esbarrei naquela esquina com Dudu e George. As vezes encostados na parede, de óculos escuro no rosto e as mãos enfiadas nos bolsos das calças.

Dudu e George, com a mesma idade, 46 anos, pais e esposos que amavam os familiares e amigos, vieram nos lembrar que a vida um dia acaba.

Na última foto dos dois juntos, Dudu escreveu em uma rede social que “Nunca acabe esse sorriso entre nós”. Assim foi Dudu. Assim foi George. Os amigos que morreram dormindo e, certamente, estão sorrindo.

Abraços.