Um ano depois da morte do miliciano e matador de aluguel num rancho na cidade baiana de Esplanada, conversas em ao menos 3 telefones de Adriano Nóbrega vieram à tona. Por meio dos diálogos, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) conseguiu mapear muitos dos passos dados, pelo ex-capitão do BOPE e então chefe do grupo de milícia conhecido por Escritório do Crime – responsável por matar sob encomenda -, desde que se mudou para o nordeste.

De acordo com o MPRJ, mesmo foragido Nóbrega seguia negociando cavalos de raça, uma das atividades em que lavava o dinheiro proveniente da milícia. “Povo aqui botou 200 [mil] no cavalo. Você dizendo que arruma mais aí. Já dei a palavra”, escreveu o miliciano a um interlocutor no dia 3 de fevereiro. Outras mensagens expõem a rede de apoio que o ex-caveira tinha. Envolvidos sabiam da identidade do ex-BOPE.

Grande parte dos cavalos valiam mais de R$ 100 mil.

Depois da fuga da Costa do Sauípe (BA), onde estava quando descobriu que a polícia havia conseguido sua localização, ele mandou que um comparsa — ainda não identificado, mas que usava um número do estado de Sergipe — fizesse uma mala para que ele pudesse fugir para o interior. “Traga minha rede azul e edredom, minhas coisas de fazenda, facas. Devo viajar logo”, determinou. Esta seria sua última fuga.

Em 2020, a investigação já havia dado conta de que Adriano participava de vaquejadas entre o norte da Bahia e o sul de Sergipe, além de negociar animais com dinheiro em espécie. À época, Lagarto foi citado no relatório técnico da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Polícia Civil do Rio, como um dos únicos municípios sergipanos aos quais Nóbrega teria participado de competições, mesmo diante de câmeras e de grande público. A intenção não era apenas se divertir, mas, principalmente, fazer negócios.

Registros da Associação Sergipana de Quarto de Milha (ASQM) apurados pelo O Papa-Jaca mostram que Adriano utilizou seu nome verdadeiro em ao menos uma das etapas do 12º Circuito ASQM Integral Mix de Vaquejada, em Estância. Competição dividida em 7 etapas teve sua final realizada em Lagarto, no Parque Zezé Rocha, mas a polícia ainda deixou claro se este teria sido o evento papa-jaca com a participação do miliciano – quantidade de participações também não foi especificada.

Ex-caveira disputou a categoria amador no primeiro dia da etapa em Estância, em 17 de janeiro de 2019, figurando em quarto lugar ao lado de seu parceiro Leandro Guimarães, o mesmo fazendeiro que lhe daria abrigo em Esplanada meses mais tarde. Menos de duas semanas depois, Adriano se tornou foragido, com a deflagração de operação do Ministério Público.

Interceptações feitas pelo MP, mostraram que o coronel se associou ao esportista e pecuarista Eduardo Serafim, dono de um rancho em Itabaianinha, para onde o ex-capitão deixou temporariamente alguns dos animais adquiridos nas vaquejadas. Grande parte dos cavalos valiam mais de R$ 100 mil. Serafim relatou o ocorrido a um homem não identificado numa conversa telefônica interceptada um ano mais tarde, em 13 de fevereiro de 2020, quatro dias depois da morte do ex-caveira. A investigação, sobre o caminho do dinheiro deixado pelo miliciano em Bahia-Sergipe, continua.

Medalha Tiradentes

Quando ainda era PM, Adriano recebeu do então deputado Flávio Bolsonaro a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. A homenagem foi dada a pedido do pai do hoje senador, o presidente Jair Bolsonaro, para quem Adriano era “um herói”.

O inquérito sobre a morte do miliciano concluiu que houve confronto na ação em Esplanada e descartou a possibilidade de execução e de que a vítima tenha sofrido tortura física. Ao mesmo tempo, a perícia identificou que o ex-PM deu sete tiros contra os policiais, atingindo escudos e partes do imóvel onde ele se escondia.