Por Anderson Ribeiro

Hoje pensei em tantas mulheres que nem lembro de todos os nomes. Me veio à memória Luana, a que tem cor de prata, que enfeita o céu e ilumina a noite. Às vezes mais outras vezes menos e acompanha as estrelas.

Já Cristiana, que tem nome de filha santificada e que veio de uma Maria e um José qualquer; Cristiana é aquela que estampa o medo vestido na pele e a roupa que cobre o medo; um zelo que carrega para se esconder; porque Cristiana sofre nas ruas a violência de todos os dias; Cristiana é predestinada a ter que ouvir insultos e ser tocada, quando queria ser música; e ser comida quando não tem fome; e dar à luz depois de estar nas trevas; e silenciar-se quando pretendia gritar; e mesmo gritando não ser ouvida, e após anos ser notada por olhares e dedos em riste. Que triste! Cristiana é crucificada pela opinião pública; enterrada sem perdão e sem oração e mesmo que se passem três séculos, Cristiana vai ressuscitar ainda com chagas e manto de espinhos.

Mas há também a Mariana que carrega a dor de uma tragédia; a dor de outras tantas fulanas que perderam a história; que foram devastadas e agora são humilhadas por serem fulanas quaisquer, sem nomes, registros ou documentos e juntas com outras sicranas, viram um rio de lama a soterrar seus sonhos e aqueles que as pertenciam e protegiam. Agora elas choram com olhos lassos por nunca mais tê-los em seus braços. Mariana é só escombros e carrega o peso nos ombros e a morte nas encostas. Mariana sucumbiu melífluo rio até desaguar em seu começo e fim: Mar sem Ana… Mariana desprendeu-se, separou-se e se perdeu por completo.

E por falar em Ana… ela é rima e sufixo; independência e complemento; vilã e mártir; frente e verso; avesso e palíndromo; início e fim: Anastácia ou Juliana. Solidão e companhia: Ana, apenas Ana ou Ana Paula, Ana Selma, Ana Julia, Ana Maria e Maria são tantas. São as sem nome e a todo mundo. Ei, Dona Maria! Essa Maria é uma qualquer. A que pede esmolas e a que despreza quem pede esmolas… e Maria foi também mãe da Cristiana, que esconde o corpo um medo tão grande de ouvir nas ruas impropérios. Sina de família! Sua Maria mãe, dizem, sofreu com alcunha de mulher que na vida havia de levar chibatadas. Hoje, Cristiana e todas as mulheres de todos os nomes sofrem por tantos que querem ditar seus destinos e torná-las criminosas quando muitas vezes são vítimas.

Hoje pensei nessas mulheres: as que tive e as que jamais terei; as que convivo e as que nem sei quem são, porque todas carregam um fardo bem pesado só por serem quem são: mulheres. As que têm leveza no nome, as que têm perfume, cor, sabor no nome e as que levam em seus nomes a herança de todas as mazelas do mundo… Penso que ainda precisamos amar mais.

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Anderson Ribeiro, poeta e jornalista, nasceu no Rio de Janeiro, em 3 de agosto em 72. Foi presidente da ASCLA – Associação Cultural de Lagarto em duas ocasiões: no fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Como jornalista passou pelas redações do jornal Cinform e Aperipê TV, em Aracaju/SE e do SBT e da TV Brasil, em Brasília/DF. Atualmente desempenha a atividade no Departamento de Comunicação Social e Eventos da Reitoria do Instituto Federal de Sergipe (IFS). Como poeta, foi premiado em concursos de poesia em Sergipe, Alagoas, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul e tem poesias publicadas em coletâneas e revistas.