“Eu quero dizer, agora o oposto do que eu disse antes…”

Daria para fazer um belo trocadilho com o trecho do clássico “Metamorfose Ambulante” do ícone cultural Raul Seixas, se o momento não fosse de muita tristeza para a arte e cultura lagartense. Podia-se dizer que Hilda Ribeiro está fazendo para o setor cultural agora, o oposto do que tinha feito antes, nas vésperas do período eleitoral – não passou de mera politicagem. Desde o início do atual mandato, a gestora tem demonstrado descompromisso com os trabalhadores da cultura e, pior, provocado um sombrio regresso do segmento em Lagarto.

A ideia da sensibilidade da “primeira mulher eleita prefeita do município de Lagarto” já começara a cair por terra no primeiro mês, quando a sua administração mostrou descaso, ao não pagar em dia, os subsídios de caráter emergencial aos beneficiários da Lei Aldir Blanc, depois pondo a culpa nos artistas para sair bem na fita. Porém, para o rebuliço nos túmulos de Silvio e Abelardo Romero, Ranulfo Prata e o saudoso poeta Ivilmar Gonçalves, o pior veio.

Hilda Ribeiro enviou à Câmara de Vereadores ontem (23), bem provável que pelas mãos de um de seus ventríloquos, as mensagens informando o seus VETOS TOTAIS (discordância, negação total) a dois Projetos de Lei que previam avanços para a arte e cultura da cidade, proposituras que demandaram tempo e muita pressão social para que fossem levadas em conta. 

Primeiro, Hilda vetou o PL 36/2020, referente ao Programa Música e Cultura Na Praça; como a gestão intui que todo lagartense deve frequentar o Pier 13, Mambo Beach ou o Duna Beach na capital durante os finais e inclusive no meio de semana – como o podem fazer o seu núcleo mais íntimo da administração ao saírem de seus escritórios palacianos -, não é necessário música ou manifestações culturais em praça pública para o povo de Lagarto.

Segundo, Hilda vetou o PL 37/2020, que consiste na Lei de Compromisso aos Artistas Locais. Pois bem, está bem claro: quem veta “compromisso”, assume o descompromisso. Como dizia o poeta, há várias maneiras de assassinar um artista, a mais cruel é lhe tirar a oportunidade de apresentar. 

Vale ressaltar que a Lei de Compromisso é um projeto consistente e relevante. O texto delimita que 60% das atrações em eventos culturais, promovidos pela Prefeitura Municipal de Lagarto, consistam de artistas da cidade ou da região. Levado à Câmara pelo ex-vereador Baiano do Treze (PSB), que concorreu às últimas eleições pelo agrupamento de Hilda Ribeiro, o PL foi rejeitado pela prefeita, sem nenhuma objeção dos membros da Casa Legislativa; o verdadeiro mote, sensação da sessão mesmo, foi a birra de Alex Dentinho e Valmir de Carminho, num esforço de cada um para dizer o quanto são queridos: um pelos chefões saramandaístas, o outro pela turma de Gustinho. 

Já Baiano, que tem uma filha artista muito ativa, acertou em cheio com a proposta e foi elogiado à época por situação e oposição, pela propositura que a população e a classe artística comemorou, mas a vetadeira vetou. 

Agora cabe aos senhores parlamentares, imbuídos de suas independências tão defendidas em campanha eleitoral, analisarem e derrubarem os injustificados vetos, tendo a hombridade de decidirem em favor da cultura e da população lagartense que precisa fruí-la. É a vez da Casa mostrar que também é um poder constituído, derrubando o retrocesso do sorriso amarelo da prefeita, que já está afetando toda a cidade.