O ramo independente da produção cultural em Lagarto tem assumido novos formatos e avançado seus estágios nos últimos anos. Atualmente, a cidade exporta fazedores de cultura alternativa num quantitativo bastante elevado quando se compara outras épocas, além de que eventos e espaços que contemplem este público seguem a cada dia crescendo. Ao menos mensalmente, alguma nova produção, seja livro, CD ou EP, é lançada.

Óbvio que meramente exportar, porém, não seria o ideal a esta parcela. No entanto, vamos nos ater apenas ao debate sobre os frutos deste novo universo. Entre as figuras que mais se na cidade hoje está Marvi – jovem de 20 anos, estudante de Teatro pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), natural de Itabaianinha, mas residente no município há mais de uma década.

“Eu vejo nossos sentimentos, no geral, como fragmentos de quem a gente é, como retalhos mesmo.”

Identificando-se como pessoa não-binária, isto é, que não se encaixa nas definições padrões de gênero, Marvi prefere ser reconhecido por pronomes neutros – aqui usaremos éle para ‘ele’ ou ‘ela’, de para ‘da’ e ‘do’ e ê para ‘a’ e ‘o’.

Não é a primeira vez que Marvi promove algum lançamento; em agosto de 2019 éle anunciou sua primeira produção musical completamente caseira: Bebinho de Amô. Dias após o aniversário de um ano de seu primeiro single, veio Meu Amor, a música mais ouvida de artiste no Spotify, com 2,2 mil ouvintes até novembro de 2020 – dois meses depois.

Agora, em 9 de outubro último, foi a vez de um EP inteiro ser lançado. Com cinco músicas, Retalhos também se encontra disponível em todas as plataformas de streaming e traz no conceito sonoro “uma exaltação do nordeste. As composições tem uma estrutura similar à música nordestina, principalmente o forró pé-de-serra”, diz Marvi em entrevista. A pegada de suas músicas têm a intenção política de “deixar claro que esse material está sendo produzido no nordeste”.

O trabalho lagartense conta com o apoio de Dry, também artiste sergipane independente, mas com experiência em mixagem e masterização. Talvez a jóia mais rara dessa produção seja a canção ‘Mamulengo’, com autorização da Banda Sinfônica do Recife – o Grupo SaGrama – para utilização da popular trilha de ‘O Auto da Compadecida’ na cena da morte de Lampião. Na nova obra, Marvi canta “sobre desilusões, mas também sobre o processo de me reconhecer enquanto artista”. “Eu vejo nossos sentimentos, no geral, como fragmentos de quem a gente é, como retalhos mesmo”, explica sobre o EP.