Na entrevista com um papa-jaca de hoje, nosso entrevistado é o artista plástico lagartense Gildécio Costaeira. O artista tem suas raízes no povoado Campo do Crioulo, e suas obras têm uma relação profunda com a natureza e as formas primitivas. 

Entusiasta do folclore, da cultura popular e das manifestações culturais e artísticas da cidade de Lagarto, ele é admirador do intelectual Sílvio Romero, outro papa-jaca que é um dos maiores vultos históricos da intelectualidade brasileira. Gildécio Costaeira também possui vários projetos musicais, além de ser irmão do vocalista e guitarrista da banda Lacertae, Deon Diven e primo do baterista Tacer Berindrums.

Atualmente, o trabalho de Costaeira está sendo exposto no continente europeu. São três telas do artista que estão sendo expostas ao público no Salão Virtual das Artes na capital austríaca, através do Festival Cultural do Brasil em Viena. A exposição teve início no dia 18 de julho e encerra agora em setembro. Na última semana, ocorreram atividades presenciais envolvendo música, dança, palestras, oficinas e literatura nas instalações do museu de etnologia de Viena: Weltmuseum Wien. É a segunda vez que o lagartense participa de uma exposição na Áustria.

Como o senhor descreve a sua relação com as artes plásticas?

Em 1990 fiz meus primeiros trabalhos como artista ilustrando as primeiras capas de fitas K7s da banda Lacertae, daí por diante não parei mais, comecei a fazer as minhas primeiras telas em 1992, a partir disso fiz exposições, comecei a acompanhar a banda Lacertae nos shows fazendo minhas mostras em todas as cidades que a banda passava. Até hoje os acompanho.

Seus quadros já passaram por países como Uruguai, Itália e a própria Áustria em outros momentos da sua carreira. Qual é a sensação de participar de uma exposição de arte internacional em meio à uma pandemia?

Assim, eu já estava meio que desesperançoso, tinha acabado de perder um convite para ir aos Estados Unidos por conta da pandemia, fiquei muito triste, mas fui em frente; comecei a mandar meus trabalhos e produzir novas telas, foi uma luz a curadora e idealizadora do Festival Cultural do Brasil Vanessa Noronha. Ela viu os meus trabalhos nas redes sociais, e de imediato entrou em contato via e-mail pedindo algumas fotos das minhas obras, release e biografia, enviei para ela e fui selecionado com três pinturas para a exposição do Art Salon Viena 2020. Tudo isso é muito maravilhoso: ter seu trabalho reconhecido na Europa e em outros continentes – só tenho a agradecer.

Link para fazer uma tour no Virtual Art Salon: https://www.festivaldobrasil.org/tour-virtual

Qual a importância de expor o seu trabalho no Festival Cultural do Brasil em Viena?

É muito importante porque meu trabalho está sendo visto por pessoas especializadas em Arte e, além disso, abre as portas para que no próximo ano possa voltar à Áustria com a exposição completa… Tenho projeto para o ano que vem, duas propostas: uma para Nova York, na galeria Agora Gallery, e outra para a Amsterdam Gallery. Com fé e muito trabalho chegarei lá: vamos representar nossa cultura, nossa cidade de Lagarto no mundo. Já aqui no Brasil, passei por diversas cidades, como Recife, Salvador, Poços de Caldas (MG),  Brasília,  São Paulo, Rio de Janeiro e Pelotas (RS).

Lacertae e a minha arte caminham juntos desde 1990.”

Seu trabalho é marcante na identidade visual da banda Lacertae, assim como a sintonia entre as temáticas das músicas do grupo e os elementos presentes na sua obra. Qual é a sua história com o Lacertae?

Lacertae e a minha arte caminham juntos desde 1990 até os dias atuais, fiz várias capas de Fitas K7, CDs e agora estamos produzindo um LP vinil em comemoração aos 30 anos de arte e música. Além de ter tocado com a banda, mantemos o projeto social no povoado Campo do Crioulo em Lagarto, a Casa de Cultura Zabumbambus, que trabalha com música,  folclore e pintura. 

Durante a sua carreira artística você já fez participações em vários grupos musicais como o próprio Lacertae, Unicampestre, Eletricultura e recentemente formou o Rustic Rural. Como é a sua relação com a música?

Eu amo a música. Sou colecionador de bandas, adoro tocar principalmente contrabaixo e pífanos. Agora estou com projeto novo chamado Rustic Rural Folclore, que é um resgate às tradições folclóricas daqui da nossa região e aos grupos de Zabumba e bandas de pífano.

Do que você mais gosta: roquenrou, ufologia ou figuras de reis?

Adoro Ufologia, sou aficionado em vida fora da Terra, mas o que eu amo mesmo é o Folclore, minhas pesquisas e estudos sobre grupos tradicionais…

Lamentável que nossa cidade não tenha espaços para a cultura já que aqui é a terra do grande defensor da cultura popular brasileira, o grande Sílvio Romero. Nossa cidade não preserva o seu passado, isso já diz tudo, muito triste. Aqui precisamos de um museu, teatro e galerias para movimentarmos a cultura.

Uma das últimas exposições de artes visuais feitas na cidade de Lagarto foi organizada por você, em 2018, se chamava “Preservação da Natureza e Suas Criações”. Na época, o espaço foi o prédio provisório da nômade Biblioteca José Vicente de Carvalho. Como você enxerga a situação dos espaços físicos para que os artistas lagartenses possam expor suas obras para o público?

Poxa, lamentável que nossa cidade não tenha espaços para a cultura já aqui aqui é a Terra do grande defensor da cultura popular brasileira, o grande Silvio Romero. Nossa cidade não preserva o seu passado, isso já diz tudo, muito triste. Aqui precisamos de um Museu, Teatro e Galerias para movimentarmos a cultura. Quero fazer outra exposição aqui na cidade nos próximos anos, espero que já tenhamos um local adequado para fazer…

Lagarto receberá aproximadamente R$ 1 milhão de reais de auxílio decorrente da Lei 14.017/2020 (Lei Aldir Blanc). Na sua visão como artista experiente e produtor cultural, tendo participado de inúmeros editais de fomento à arte e cultura, qual a sua expectativa quanto aos recursos emergenciais desta Lei para os artistas e fazedores de cultura da cidade?

Acho que será bem vinda, sendo que a melhor forma de distribuir essa renda, seria através de festivais de música, exposições coletivas de artes, mostras de teatros, nisso ajudará vários setores da arte lagartense, distribuindo de uma forma legal que alcance todos os artistas. Foi e está sendo uma das profissões mais prejudicadas pela pandemia e vai demorar muito para se estabilizar.

Qual o perfil dos seus colecionadores?

Tenho vários tipos de compradores, desde amigos, donos de galerias, arquitetos, e os advogados são os que mais compram minhas obras.

Como se dá a influência do Campo do Crioulo nas suas telas?

Campo do Crioulo é tudo para mim. A primeira coisa quando falo for a daqui é do Crioulo. O Povoado é berço da minha arte, foi lá que desenvolvi minha técnica: “Art Primitiva e Natural”, que por sinal sou o único no mundo que trabalha com essa temática através desses trabalhos, e que é requisitado para fazer exposições, inclusive, estarei voltando para São Paulo ano que vem para mais uma edição da EXPOARTE. Campo do Crioulo é minha vida, lugar onde nasci, me criei e vou morrer (sorri).

Conheça mais sobre esse artista papa-jaca e seu trabalho:

https://costaeira.wordpress.com/