Na estreia do entrevista com um papa-jaca, conversamos com o jornalista Iuri Rodrigues. Lagartense, autor de “Um Lugar Para Respirar”, primeiro livro-reportagem do Brasil que relata a batalha de quem espera um transplante pulmonar no país, e de “Ser Feliz Dói” – livro que traz crônicas que apresentam personagens lagartenses e vivências do escritor; Iuri também é pré-candidato a vereador pela cidade de Lagarto este ano. Ele concedeu uma entrevista exclusiva a este jornalista para O Papa-Jaca sobre as dificuldades que a cidade de Lagarto enfrenta e os desafios de um escritor e jornalista na política.

Iuri de Zé Grande, como também é conhecido, chegou a disputar uma vaga na Câmara Municipal de Lagarto em 2016, e apesar de não ter sido eleito, teve uma votação expressiva (764 votos). Rodrigues tem um histórico de participação em movimentos sociais enquanto esteve em São Paulo, e nos diz agora qual a sua visão sobre o município de Lagarto.

Iuri, você se formou no ano de 2010 na Universidade Tiradentes e logo em seguida foi estudar fora. O processo de criação do seu primeiro livro foi em Porto Alegre. Depois dessas experiências em outros lugares do país, qual foi o sentimento que fez você decidir vir lançar o seu trabalho em Lagarto?

O bom da vida é poder voltar. Né legal isso, de você sair, aprender, ensinar e depois compartilhar experiências em sua cidade? Mesmo já tendo saído tantas e tantas vezes de Lagarto, para estudar, aqui sempre foi e é a minha essência. É tão bom chegar em outros lugares e falar de minha cidade, das pessoas, da cultura desse lugar… e deixar todo mundo curioso pra conhecer nossa terra. Acho isso o máximo.

Qual a importância das experiências que você viveu enquanto esteve em outros estados para a sua carreira?

São experiências de aprendizados de vida mesmo, sabe. De crescimento, de trocas. Tenho esse espírito, de querer conhecer. Nesse meu último livro, “Ser feliz dói”, falo justamente de encontros que a vida me proporcionou e proporciona.

“Acho que a Câmara de Lagarto já passou da hora de ter alguém voltado, de verdade, com as pautas relacionadas aos movimentos LGBTs, negros, estudantes, mulheres, com os trabalhadores, campesinos, moradores de rua, etc.”

No último pleito eleitoral para vereador você bateu na trave. O que mudou do Iuri de 2016 para o de 2020?

Sempre tive uma trajetória com as pautas mais progressistas e de esquerda. Participei de vários movimentos sociais quando morei em São Paulo. Esse engajamento pessoal sempre ultrapassou os limites da universidade. Acho que a Câmara de Lagarto já passou da hora de ter alguém voltado, de verdade, com as pautas relacionadas aos movimentos LGBTs, negros, estudantes, mulheres, com os trabalhadores, campesinos, moradores de rua, etc. 

Eu, enquanto cidadão lagartense, me sinto órfão de representatividade na câmara da minha cidade. Gostaria muito de preencher esse espaço e dar voz às pessoas silenciadas e invisibilizadas da cidade. 

Qual o panorama do PSD em Lagarto hoje?

O PSD lagartense hoje está bem diverso, o que foi essencial para que pudesse me filiar. Temos o compromisso de fortalecer as políticas públicas para os mais necessitados, e principalmente com os jovens, buscar renovação para a Câmara Municipal. 

A pandemia apresenta uma drástica mudança no modelo de campanha, com intensificação da participação das redes sociais e da propaganda eleitoral na mídia. Com isso, especialistas dizem que candidatos com maior poder econômico e que podem contratar bons serviços de marketing digital podem ter vantagem. Porém, em cidades do interior como Lagarto, o corpo a corpo sempre foi determinante. Como você enxerga essa situação?

Acredito que as pessoas estão mais atentas, mais cuidadosas com o voto. Precisamos nos cuidar nesse momento de pandemia, e com certeza a caminhada política no interior precisa desse corpo a corpo, olho a olho. Mas não vamos negligenciar o poder das redes sociais, é necessário conciliar o real com o virtual durante a campanha. É também o momento para mostrar a importância do SUS e dos profissionais da saúde, que infelizmente estão sendo precarizados, trabalhando exaustivamente, pois foram responsáveis por salvar milhares de vidas. Então, vamos fazer tudo que os profissionais de saúde recomendam, com toda certeza. 

O adiamento das eleições para o mês de novembro dividiu opiniões no meio político. Mais tempo de campanha favorece aos que pretendem a reeleição, ou estes, com mais tempo se expondo a possíveis desgastes, dão espaço para a renovação?

Os dois, e depende do aparato político que esteja por trás da campanha de cada um candidato. Os candidatos da velha política que já são conhecidos não precisarão de mais tempo para difundir suas ideias, apenas agitar seus eleitores para continuar no poder. No entanto, quem se propõe a ser uma renovação, como sempre, vai ter um trabalho muito duro pela frente e agir por todos meios possíveis para ter visibilidade durante a campanha. É necessário construir um diálogo transparente com os lagartenses, isso requer trabalho coletivo, não tenho dinheiro para fazer uma mega campanha, vamos ter que fazer um trabalho de formiguinha sabe, 1 + 1 + 1 + 1 …, até virarmos uma multidão e nossas ideias serem difundidas entre os lagartenses, para que assim, quem sabe, nós tenhamos uma chance de renovar a Câmara Municipal.

Recentemente, a Câmara de Vereadores de Lagarto passou por dias intensos, com indiciamento do presidente da Casa e de outro parlamentar por crime de peculato, e logo em seguida, discussões acaloradas envolvendo abertura de CPI contra a atual prefeita, que acabou dando em “pizza”. Como você tem observado a atuação da CML nesses quase 4 anos de legislatura?

Quanto a atuação dos vereadores na câmara, acho péssima. Quanto a governança de Hilda na prefeitura, pior ainda. Veja a situação drástica que estamos, durante uma pandemia de um vírus que está matando milhões de pessoas no mundo inteiro, nossas ruas estão cheias, um monte de gente circulando por ali e por aqui transmitindo o covid-19, Hilda não mandou “trancar tudo’, fazer o lockdown, e os hospitais estão lotados, a situação é gravíssima. Não tomar medidas sérias para garantir o isolamento social é irresponsável. Temos que garantir a renda das pessoas para que elas fiquem em casa, seguras. Renovar a Câmara de Lagarto é a segunda tarefa mais importante do ano. A primeira é salvar vidas e vencer a pandemia.

Durante esses 4 anos de legislatura, vi pouquíssimos avanços, quase nenhum. Esses vereadores, apesar de eu ter relação pessoal com alguns, não me representam na Câmara. Então não tenho muito a dizer, só que acho deplorável tudo isso que está acontecendo durante anos na Câmara Municipal. É triste e revoltante.

O atual caso da pedalada fiscal que está sendo investigado é muito grave, segundo O Paca-Jaca “dos R$5 milhões recebidos pela Administração em recursos federais em 15 de julho – R$1,2 milhões transferidos pelo Governo à conta administrativa de Recursos Próprios, em 17 de setembro do ano passado, serviram ou não para realizar pagamentos que não aqueles aos quais o dinheiro foi enviado em específico. Da parcela transferida, apenas R$472 mil voltaram à conta de Custeio Federal”. Isso requer investigações eficientes e objetivas, não pode “acabar em pizza” e todos os envolvidos (caso realmente seja comprovado os crimes) sejam punidos.

Atualmente a imprensa brasileira vem sofrendo uma série de ataques, muitos destes incentivados e perpetrados pela maior autoridade política do país; em Lagarto há muitos veículos de comunicação e comunicadores. Qual o papel, na sua opinião, desses profissionais da imprensa para o progresso do município?

Os ataques direcionados aos jornalistas tem um motivo: censurá-los. Certos políticos pagam a alguns veículos alternativos de comunicação para produzir notícias falsas com propósito de desinformar e manipular a opinião pública, damos o nome a isso de fake news. Faz parte do trabalho dos jornalistas sérios desmentir essas fake news, por esse motivo tentam nos calar. Afinal, certos governantes têm medo da verdade.

O papel dos jornalistas é manter o diálogo entre o poder público e a comunidade, apurar os fatos e fiscalizar da maneira mais profissional possível para poder entregar as notícias e informações de qualidade para a população.

Uma população bem informada, por dentro de tudo que acontece na política, tem uma capacidade de articulação muito maior. Uma cidade que tenha ótimos veículos de comunicação, aproxima o povo do poder e consequentemente democratiza os espaços públicos de poder.

Aqui em Lagarto, infelizmente há poucos jornais independentes, mas ótimos jornalistas, e vamos tentar trazer esses jornalistas para o centro das discussões durante a campanha, tentar extrair informações pertinentes para entender melhor os problemas da cidade. Quero também que o povo faça isso sabe, é importante que nós fiscalizemos juntos para aprofundar o conhecimento sobre a política em Lagarto. É também nosso dever como cidadãos, valorizar a democratização da informação e da comunicação.

Em Lagarto, verifica-se historicamente que a maioria dos que se propõem a entrar na política são comerciantes e empresários, em toda a sua história a cidade só teve um funcionário público ocupando a prefeitura, uma realidade que não é muito diferente na Câmara de Vereadores. Você como escritor e jornalista, como vê a participação de diferentes profissionais da sociedade ocupando um cargo público?

É como falei antes, quem tem aparato político, quem tem mais recurso financeiro, quem tem mais influência econômica, infelizmente domina as relações políticas e obviamente saem muito na frente de quem não tem esses recursos. 

Para enfrentar essa politicagem requer muita coragem, muita perspicácia. Gostaria muito que as eleições fossem mais democráticas, mais justas, luto por isso. Luto para que qualquer um seja um sujeito político e faça política no seu dia a dia. É nosso dever como cidadão sempre estar cobrando os governantes, sempre estar apontando os erros e denunciando. Como jornalista, aprendi a não ficar calado, a não ser levado por paixões políticas, entender a cidade pela realidade dos fatos. É necessário que todas pessoas, de qualquer profissão, classe, gênero, orientação sexual, participe ativamente da política. Mas não posso mudar tudo sozinho, conto também com o trabalho de vocês para renovar a Câmara Municipal e sem dúvida, poder representar nossa comunidade lagartense. Vai ter uma novidade muito boa, que apresentarei durante a campanha, vamos tentar conciliar jornalismo independente com política, a participação ativa da população para fiscalizar melhor a cidade. Não posso dar muitos detalhes agora, mas espero do fundo do meu coração, que gostem.

Cidade universitária, com um dos empresariados mais fortes do estado e com 4 parlamentares (dois deputados estaduais, dois federais e um senador como representante), um dos berços culturais de Sergipe, Lagarto ainda será sede do primeiro Hospital de Amor do Nordeste. Mesmo com tudo isso, a cidade tem apresentado falhas em questões básicas, como desemprego e saneamento básico. Na sua visão, qual o perfil administrativo que Lagarto precisa ter para se tornar um município de fato moderno?

Com certeza, a falta de saneamento básico é um dos maiores problemas de Lagarto. Temos que entender o fornecimento de água como um direito humano básico e lutar pela universalização do acesso a água, ao tratamento de esgoto e a coleta mais eficiente dos resíduos sólidos para evitar poluição das águas. Vamos lutar para que a água chegue em todos povoados e comunidades da cidade.

O desemprego deve-se a longa crise econômica que vivemos desde 2015, na minha opinião, faz parte de uma boa administração pública criar planos de combate ao desemprego. As baixas no comércio lagartense antes e durante a pandemia aumentou o desemprego e a desigualdade, os pequenos empresários, comerciantes, feirantes, quebraram e a prefeitura nada fez para auxiliar eles e quem também mantém a economia ativa, o povo consumidor. Garantindo o lado da oferta e da demanda, a economia volta a funcionar normalmente e a tributação depois da pandemia, também. O que é necessário para manter os investimentos públicos. Sem isso, os governantes apenas estão apenas prolongando a crise.

No entanto, quanto ao perfil de administração pública, creio que um bom prefeito ou prefeita, agiria com mais eficiência e agilidade para impedir o aumento do desemprego e consequentemente, da pobreza. Trata-se de olhar a cidade com mais bondade, com mais humanidade, vivemos em tempos muito difíceis, temos que cooperar uns com os outros para enfrentar esses e vários desafios. Um bom administrador seria mais solidário, construindo soluções de forma coletiva. Uma cidade moderna para mim é uma cidade diversa, sustentável, que todos tenham saúde, segurança, transporte, educação de qualidade e que os direitos básicos sejam garantidos.

Iuri, como é a dor de ser feliz em Lagarto?

Ser feliz é um processo. E aqui em Lagarto eu tive uma professora que mudou a minha vida. Ela é extraordinária, e hoje é uma grande amiga. Ser feliz em Lagarto, essa cidade tão importante para Sergipe, é poder ter desfrutado de uma boa educação pública, ter apreciado a biblioteca da cidade, ter ido às missas de domingo a tarde. Isso é felicidade. Eu sempre gostei de ouvir histórias de gente. E descobri no jornalismo que ser repórter é sinônimo de encontrar, alcançar. Porque a gente participa de encontros com gente, de carne e osso. E olhar o outro com empatia é um grandioso exercício de felicidade. E, como diz Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Que sejamos de verdade, então, por inteiro.