Ao longo das últimas semanas, a série de documentários da Netflix ‘Explicando’ lançou um especial sobre o coronavírus. Tendo como base a obra de referência Information is Beautiful, do jornalista de dados e autor de dois best-sellers David McCandless, a produção informa – entre outras coisas – que para uma doença se tornar pandemia é preciso “um equilíbrio extraordinário entre letalidade e contágio”.

A partir disso, é possível criar um comparativo entre dezenas de vírus que já assolaram a humanidade e tentar entender como eles conseguiram se espalhar por todo o mundo – mesmo antes da globalização. Entre essas doenças está a varíola – também conhecida como bexiga; muito usada como palavrão em Sergipe.

“Alta transmissibilidade do Sars-Cov-2 é capaz, não de nos fazer debandar outra vez, mas de nos obrigar a escolher quem – nas filas de UTI – deverá tentar viver ou simplesmente morrer.”

Responsável por matar em torno de 30% dos infectados, além de deixar sequelas em quem sobrevive – como cegueira -, a varíola era transmitida de maneira idêntica à covid-19: pelo ar, ou pelo simples contato. Até os anos 80, quando foi erradicada no mundo após uma campanha global de vacinação, o vírus causador da bexiga não tinha imunização ativa; isto é, apenas estava imune, aqueles que haviam sobrevivido à chaga.

Conforme artigos científicos e obras históricas consultadas pelo O Papa-Jaca, a varíola e Sergipe tiveram uma história muito intensa – sobretudo nos anos do Brasil Colônia e do Império, quando os problemas de Saneamento e Saúde Pública eram exponencialmente piores que os atuais. De acordo com o fragmento, “A Erradicação da Varíola no Mundo”, de Bruno Soeresen – diretor do Instituto Butantan entre 1978 e 1979 -, “o primeiro passo para erradicação da Varíola no Brasil foi dado em 1962 quando o Ministério da Saúde instituiu a Campanha Nacional contra a Varíola, limitando-se no início ao Estado de Sergipe e apresentando excelentes resultados”.

Registro do centro comercial de Lagarto em seu local atual no início do século XX. FOTO: Reprodução

No entanto, antes da vacina, as duas únicas saídas ao contágio do vírus eram a higienização constante e, principalmente, – se tratando de períodos ainda mais antigos, quando o método de contaminação não era conhecido – o isolamento social, medida utilizada pioneiramente quando a conhecida Peste Negra voltou a assombrar o mundo europeu no século XIV.

Por conhecer sua história, os países desenvolvidos entenderam muito mais rapidamente que o Brasil a necessidade da quarentena contra o coronavírus. Não deveria ser diferente em Lagarto, cujo surto variólico dizimou parte da então pequena população papa-jaca, deixando cegos uma quantidade expressiva dos sobreviventes.

Quando a doença chegou à cidade ternura, eram meados do século XVII. Segundo historiadores, fato de deu logo em seguida ao início da colonização das terras do Lagarto, que se iniciou entre 1596 e 1604, a partir do atual povoado Santo Antônio – que antes de ser casamenteiro, é padroeiro dos amputados, dos pobres e dos oprimidos. Sim, o santo foi escolhido propositalmente.

Com a epidemia da doença colonial, a então vila se dispersou em busca de segurança. Quem conhecer o marco inicial da Cruz das Almas precisa lembrar que este registra a passagem dos jesuítas Gaspar Lourenço e João Solônio, disseminadores de fé numa época conturbada e responsáveis pela fundação da primeira capela de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, em 1679. Local foi feito onde hoje está centro do Município, a seis quilômetros do antigo lugar – na qual permaneceram apenas os enfermos.

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PREOCUPANTE | @opapajaca estará produzindo, a partir de hoje, gráficos para exibir a evolução da covid-19 relacionando Lagarto e demais municípios mais atingidos no estado. Desta vez, o comparativo levou em consideração Estância e Itabaiana por serem aqueles que disputam com a cidade o status de mais afetado – quando se anula a Grande Aracaju. A curva de crescimento se assemelha à de Estância, que estando no 13º dia desde o primeiro caso comunitário oficialmente computado, já tem 32 diagnósticos positivos oficiais – tendo em vista que a subnotificação pode atrapalhar o quantitativo exato. Até dois dias atrás, Lagarto até superava Estância no crescimento; ambos estão acima de Itabaiana, que ontem – no 14º dia – tinha 20 casos (agora são 26). #Grafico #Lagarto #Itabaiana #Estancia #Covid19 #OPJ

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Não se sabe ao certo a quantidade de mortos pela doença por aqui, mas, a título de conhecimento, em 1888, os registros mostram que a bexiga matou mais de dois mil aracajuanos. A partir de julho de 1895 e durante todo ano de 1896, trazidos pelos passageiros do Vapor Santelmo, ocorreu outra epidemia de varíola de elevada gravidade no estado. Na época, as cidades mais atingidas foram Estância, as vizinhas Simão Dias e Riachão do Dantas, além de Aracaju e Itaporanga.

Aprendendo a lição, Lagarto, ao menos, conseguiu não entrar nesse ranking. Ocorre que a falta de memória não nos faz perceber a urgência no tempo atual. O coronavírus, de fato, não é tão mortal quanto a varíola, mas é justamente isso que o torna perigoso. Embora, obviamente, não seja capaz de nos fazer debandar outra vez, é preciso consciência para perceber que a alta transmissibilidade do Sars-Cov-2 tem potencial, com certeza, de nos obrigar a escolher quem – nas filas de UTI – deverá tentar viver ou simplesmente morrer.