Na manhã deste sábado (25) o The Intercept vazou um documento do Ministério Público quanto as investigações envolvendo os negócios de uma milícia no Rio de Janeiro, de nome ‘Escritório do Crime’. A investigação já era de conhecimento público, a novidade da vez é que parte do dinheiro investido e lavado pelo grupo criminoso, inclusive no ramo da construção civil, partiria do esquema ‘rachadinha’.

“O investimento para as edificações levantadas por três construtoras [em nome de laranjas] foi feito com dinheiro coletado no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ), como afirmam promotores e investigadores sob a condição de anonimato”, escreve o jornalista Sérgio Ramalho na manchete.

Trecho da denúncia do Ministério Público que tornou o capitão Adriano Magalhães da Nóbrega foragido da Justiça, antes dele se mudar para Bahia, em outubro de 2018. IMG: The Intercept

O esquema funcionaria assim:

• Flávio pagava os salários de seus funcionários com a verba do seu gabinete na Alerj.

• A partir daí, Queiroz – apontado no inquérito como articulador do esquema de rachadinhas – confiscava em média 40% dos vencimentos dos servidores e repassava parte do dinheiro ao ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, uma milícia especializada em assassinatos por encomenda.

• A organização criminosa também atua nas cobranças de “taxas de segurança”, ágio na venda de botijões de gás, garrafões de água, exploração de sinal clandestino de TV, grilagem de terras e na construção civil em Rio das Pedras e Muzema.

• As duas favelas, onde vivem mais de 80 mil pessoas, ficam em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, e assistiram a um boom de construções de prédios irregulares nos últimos anos. Em abril do ano passado, dois desses prédios ligados a outras milícias desabaram, deixando 24 mortos e dez feridos.

• O lucro com a construção e venda dos prédios seria dividido, também, com Flávio Bolsonaro, segundo as investigações, por ser o financiador do esquema usando dinheiro público.

Em Sergipe, Adriano se apresentava pelo próprio nome e era popular por fazer pagamentos em ‘dinheiro vivo’. FOTO: Reprodução

O esquema miliciano carioca, que agora sabe-se que envolveu repasses da rachadinha bolsonarista, já era publicamente conhecido. O Globo registrava, em 10 de fevereiro deste ano, após morte do chefe da milícia: “Deflagrada em 22 de janeiro de 2019, com base em investigações do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO), do MP, a operação ‘Os Intocáveis’ revelou que o ex-capitão comandava um esquema de agiotagem, grilagem de terras e construções ilegais, com o pagamento de propina a agentes públicos, a fim de manter seus negócios ilícitos, ‘sempre de forma violenta e por meio de ameaças’. Adriano era o único foragido. Outros 12 integrantes da milícia de Rio das Pedras estão presos”.

“Jamais foi férias ou apenas competição.”

A polícia do Rio acredita que as fazendas de gado — ele teria terras na Bahia e em Sergipe em nome de laranjas — eram uma forma usada para lavar o dinheiro justamente do esquema em questão. Já a Folha de São Paulo foi além e, também em fevereiro, trouxe informações inéditas da investigação; o jornal foi preciso e especificou dois municípios sergipanos, que segundo promotores, foram frequentados pelo ex-BOPE: “Nos meses anteriores, participou de competições de vaquejada nos municípios de Lagarto e Itabaiana, em Sergipe, Serrinha e Inhambupe, na Bahia, mesmo diante de câmeras e de grandes públicos”. A equipe de Adriano era intitulada de Dakar.

No entanto, não é somente isso. De acordo com policiais, o ex-BOPE tinha os negócios com a vaquejada não apenas como uma iniciativa pessoal ou passatempo. A ida a municípios jamais foi férias ou apenas competição, mas a intenção seria a manutenção de um grupo criminoso para lavagem de dinheiro e, inclusive, “até mesmo a formação de uma nova célula miliciana no Nordeste”, escrevem Joao Pedro Pitombo e Ítalo Nogueira à Folha. Conforme apurado pelo O Papa-Jaca, recepção de Nóbrega em Lagarto pode ter tido a participação de políticos locais e seus núcleos.

Rodovia

Um outro episódio que reforça o pensamento dos investigadores é que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) chegou a parar a namorada de Adriano entre a Bahia e o Rio de Janeiro, quando ele já era procurado pela Justiça. No termo de depoimento, obtido com exclusividade por ÉPOCA, os agentes da PRF destacaram que nenhum dos presentes no carro apresentou “nervosismo” durante a conversa – o que facilitou a família de Nóbrega a passar despercebida.

Júlia Emília Mello Lotufo, de 28 anos, disse aos agentes que foi até o estado baiano para vender um cavalo. Ela teve o carro interceptado na Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), na altura de Vitória da Conquista, na Bahia, a cerca de 600 quilômetros de Esplanada, onde estava com o miliciano e sua filha, de 8 anos. Na bolsa de Júlia, foram encontrados cerca de R$ 15 mil – condizente com o valor de um animal de raça – e e uma agenda com dados sobre venda de gado foi utilizada para justificar a quantidade de dinheiro.