Publicado originalmente em 31 de março de 2019

“[Durante o governo Médici, fui preso] três pelo Exército, uma pela Marinha e outra pela Aeronáutica, mas essa foi de um dia só. Fizeram umas perguntas e me mandaram embora. As perguntas eram sempre as mesmas, uma coisa idiota: ‘Você é comunista?'”, disse o lagartense Joel Silveira que encerrou sua vida como cidadão do mundo. Sempre alinhado com o pensamento socialista, Joel por vezes foi acusado de ser um conspirador. Viu amigos serem levados pela face da morte militarizada, mas não abaixou a cabeça.

Talvez grande parte da coragem que aglutinou para si tenha advindo dos tempos que passou na Itália como correspondente durante a Segunda Guerra Mundial. Em sua primeira reportagem, ainda a bordo com destino à Europa, Joel registrou o que lembrou das palavras de Assis Chateaubriand, seu patrão, ao despedir-se: “Seu Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra, mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias”, conta.

Joel Silveira morreu aos 88 anos, no dia 15 de agosto de 2007. FOTO: Reprodução/OPJ

Desde os 14 anos seu hobby era o jornalismo e, inclusive, já trabalhava escrevendo para o extinto sergipano Voz do Operário. Aos 19 anos ele começa o curso de Direito no Rio de Janeiro – que no ano, 1937, era capital do país -, mas dois anos depois deixa o curso para “brilhar no jornalismo”, nas palavras de Rogério Marques em texto sobre o centenário d’O Víbora.

Durante nove meses Joel Silveira cobriu a guerra. Entre os momentos vividos, acompanhou a tomada de Monte Castelo pelos brasileiros, que relata em outro texto marcado pela emoção de quem presenciou a História: “Os morteiros nazistas rebentam nas fraldas do sul, mas nossa artilharia reinicia seu canhoneiro sistemático e certeiro, como fizeram toda a noite. Escuto o silvo das granadas sobre nós, vejo-as explodirem lá adiante, numa coroa de fumaça que cai sobre Castelo como uma auréola de chumbo”.

No documentário à GloboNews de Geneton Moraes Neto, o Garrafas ao mar: a Víbora manda lembranças, Silveira relembra colegas mortos na Ditadura. Diz que nenhuma das versões contadas pela cúpula militar, sobre casos como Herzorg, faziam sentido e cobrava explicações através de uma pergunta que, infelizmente, viajou no tempo até o presente: “Quem matou e quem mandou matar?”. Na obra jornalística, Joel faz a indagação em referência ao ex-deputado Rubens Paiva – líder trabalhista, sua morte só foi confirmada mais de 40 anos depois, após depoimentos de ex-militares envolvidos no caso à Comissão da Verdade.

Ao longo de sua vida profissional o lagartense fez inúmeras reportagens marcantes: entrevistou Getúlio Vargas, cangaceiros do bando de Lampião presos em Salvador, denunciou as condições de trabalho de mineiros do Rio Grande do Sul e de pescadores do Ceará. Muitos desses trabalhos estão em alguns dos cerca de 40 livros que publicou, de reportagens e ficção. Como escritor recebeu, entre outros, os prêmios Líbero Badaró, Jabuti, Golfinho de Ouro e Machado de Assis, o mais importante da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1988, pelo conjunto de sua obra.