Foto de O Papa-Jaca

O Papa-Jaca entrou no ar em 14 de janeiro de 2019. Sem parar, o portal publicou – com exclusividade – reportagens investigativas e denúncias diversas, envolvendo a casta política municipal, os soldados de chumbo do Governo do Estado e sua violência contra periféricos, estudantes e até advogados, a incompetência ou a ingerência na fala de vereadores, a busca incessante pelo poder e por votos por parte de deputados, a corrupção sistêmica e grave das administrações da cidade; até igrejas e empresários foram alvos de exposição.

“O convite é simples e implica em, juntos, reescrevermos a história.”

Muitas outras coisas foram destaque. Porém, acima do sentimento de orgulho pelo trabalho feito, o que mais instiga é a preocupação que esse ano deixou. Para onde caminha a democracia lagartense? Seria para o mesmo rebuliço caótico dos últimos 70 anos? Desde que Lagarto passou a eleger prefeitos, uma disputa sem nexo domina o debate público. No contexto da luta de classes, beneficiam-se apenas os ricos de sempre. Famílias abastardas que entregam o poder como herança de pai para filho. Burguesia financiando a palhaçada e a mídia beijando os pés, fazendo mais papel de bobo da Corte do que de veículos de Transparência.

Durante o regime militar, grupos oligárquicos lagartenses apoiaram os ditadores. FOTO: Arquivo

Quem fez a escolha por este modelo político foram os grandes. Esse dado é óbvio, não obstante o nome que damos aos agrupamentos que, atualmente, polarizam a cidade em três, são ‘grupos oligárquicos’. A nível nacional, tais grupos deixaram de se alternar no poder com o Estado Novo de Getúlio Vargas, nos anos 30. A política federal até pode e deve ser criticada, mas pelo menos não carrega a chaga de ser definida pelo sobrenome que o candidato ‘A’ ou ‘B’ possui. Não seria a hora de pensarmos numa alternativa popular?

Chega a ser cansativo sempre bater nesta tecla. No entanto, prefiro morrer de cansaço, do que de tédio. É inegável que o baixíssimo desenvolvimento papa-jaca, tanto no campo democrático, quanto econômico, se deve por conta de um debate fuleiro que se recusa a avançar. Reis gostam disto porque isto os mantém lá; Ribeiros gostam disso porque isso os mantém lá.

“Será que você, leitor, não consegue perceber que, resumidamente, essa foi a história da cidade nos últimos dez anos?”

Quando em 2008, Lagarto pareceu parir a segunda chance de entrar no século XXI – isto é, com uma década de atraso, já que tal século havia chegado oito anos antes – a cidade descobriu, tempos depois, ter vivido uma dura decepção que lhe custou mais uma década perdida. Na época, um candidato aparentemente disruptivo se colocou na disputa eleitoral e venceu. Ele não carregava qualquer sobrenome oligárquico e se autoproclamava não pertencente a nenhum dos agrupamentos. Todavia, Valmir Monteiro sabia o motivo de Reis e Ribeiros gostarem da forma como a política era feita localmente e se sentiu confortável reproduzindo-a.

Valmir nunca quis e nem tentou quebrar o establishment. Ele preferiu adotar o discurso, se unir ao que ainda restava dos Ribeiros e se mostrar uma viabilidade sem compromisso democrático ou republicano. O resultado? Seus primeiros quatro anos findaram com acusações administrativas e criminais vergonhosas. O ‘saramabole’, como Monteiro se declarava, viu sua primeira gestão ser substituída por um saramandaia que afundou o município num caos financeiro sem precedentes históricos. Ao voltar, em 2016, viu os efeitos de sua má administração recaírem judicialmente sobre si, obrigando Lagarto a assistir a prisão de um gestor e uma atípica mudança de comando. Além disso, diversas secretarias foram preenchidas com seus familiares, permitindo o surgimento de um terceiro agrupamento.

Escola Adelina Maria durante eleições de 2018. FOTO: O Papa-Jaca

Será que você, leitor, não consegue perceber que, resumidamente, essa foi a história da cidade nos últimos dez anos? Se você for capaz de perceber isso, entenderá como que 2020 pode vir a ser a chance de Lagarto finalmente entrar no século XXI. Parece cruel, mas costumo pensar que os males sempre vêm para nos deixar alguma lição. Espero que tenhamos aprendido a nossa. Todo esse caos, pelo menos, fragilizou os agrupamentos e os dividiu entre si mesmos, abrindo margem para algo ainda não tentado ganhar minimamente alguma visibilidade; é, simbolicamente, um cavalo selado do destino que não podemos deixar passar outra vez.

Sim, eu estou falando das eleições. Numa democracia, não existe mudança possível distante da alteração da consciência e do voto. Se não aprendermos isso, crianças da extrema-pobreza seguirão morrendo nos bastidores, pessoas seguirão sem saneamento básico nos bastidores, periferias e povoados seguirão sendo a segunda opção, vereadores continuarão votando e falando besteiras e a economia seguirá semifeudal. Não me refiro a indivíduos específicos, mas a uma ideia: Derrubemos este modus operandi e viremos as costas para qualquer um – repito: qualquer um – que o apoie. O convite é simples e implica em, juntos, reescrevermos a história.