Em janeiro, O Papa-Jaca levou ao ar a primeira de suas galerias jornalísticas. Com o título Fotos: O interior mal assombrado do antigo prédio do Grupo Escolar Sílvio Romero, a reportagem trouxe, ineditamente, imagens do interior da estrutura que segue há anos abandonada pelo Poder Público. Um mês depois, foi ao ar uma segunda matéria, desta vez, demonstrando o descompromisso da Administração com o patrimônio histórico lagartense.

“Estado de ruína.”

O Plano Plurianual do município de Lagarto para o quadriênio 2018/2021 foi sancionado em novembro 2017 pelo ex-prefeito da cidade Valmir Monteiro (PSC). O plano instituído por lei diz respeito a programas e ações do governo para o período e determina, anualmente, o que será gasto pela Administração em cada área, por meio das secretarias.

A lei que institui o plano plurianual foi aprovada pela Câmara Municipal e, logo em seguida, sancionada sem vetos pelo então prefeito. Porém, o que chamou atenção foi a ação de nº 0004 referente à Promoção de Atividades Culturais Artísticas, Esportivas e de Lazer com ênfase na qualidade de vida e suas notáveis diferenças na distribuição de recursos. Para os quatro anos que se seguem, o valor intencionado para festejos populares totalizaram R$ 6.961.015 – sendo para 2019 o valor de R$1,65 milhões.

Formando durante apresentação do trabalho. FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal

Do outro lado, entre os menores valores e totalizando apenas R$ 9.282, está o quesito Recuperação, Conservação e/ou Manutenção de Patrimônio Histórico e Cultural com gasto previsto para o ano de apenas R$ 2.200. Em 2018 a cifra prevista foi ainda menor: 2 mil reais. Tendo como base o que foi aprovado e sancionado, os valores gastos com festas terão ultrapassado até o ano da eleição (2020) a casa dos 5 milhões de reais, enquanto que a recuperação do patrimônio histórico não terá chegado sequer na casa dos 10 mil.

“Um dos principais impasses que me levaram a desenvolver a pesquisa foi o atual estado de conservação do prédio”, diz Alysson Santana, recém-formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tirantes (UNIT) em conversa com O Papa-Jaca. Assim como Riclécio Silveira, que apresentou uma proposta de parque urbano no arredor da barragem municipal, Santana optou por fazer seu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – focando em anseios antigos da população.

A ideia de Alysson é exatamente fazer uma restauração arquitetônica e não uma mera reforma da estrutura inaugurada em 1923. “Evidenciar a edificação nova e valorizar a antiga através da nova”, resume o estudante sobre qual foi sua proposta. Para tal, ele se baseou nos estudos de teóricos como o italiano Camillo Boito e os tratados de Paris e Amsterdã a respeito das formas de intervenção possível. Em julho de 2018, o prédio foi vítima de um incêndio. Segundo Alysson, o fogo deixou partes da estrutura “em estado de ruína”.

Depois de catalogar uma série de fotos e identificar ao menos 15 problemas estruturais diversos – como falta de banheiros, fungo e mofo, reboco descascado, vandalismo, esquadrias apodrecidas e quebradas, pisos e espelhos danificados etc -, Santana buscou compreender como a edificação, tombada em 1991 pelo Governo do Estado, poderia ser útil às atividades da Academia Lagartense de Letras (ALL); órgão a quem foi prometida a obra para servir de sede.

Assim, o palácio – como ele chama – passaria a contar com um auditório com revestimento em madeira no terreno baldio ao fundo, um paisagismo novo e diverso, tendo na frente palmeiras imperiais. A estrutura restaurada contaria com banheiros na sede – na parte já descaracterizada do local – e no auditório, além de rampas de acessibilidade internas e externas, modificações na parte posterior do muro, garantido maior visibilidade ao interior da área, espaço para estoque, recepção, biblioteca, salas multiuso, de reunião e para diretoria, hall com cobertura em balanço. O TCC foi aprovado pela universidade.

Apenas um sonho

Sem recursos municipais, o então prefeito de Lagarto, Lila Fraga (PSDB), assinou em abril de 2014 – nas vésperas do pleito – o ato de permissão de uso do antigo Grupo Escolar Silvio Romero para implantação da Casa de Cultura Silvio Romero, projeto que seria executado pela Secretaria de Estado da Cultura (SECULT). Os recursos foram prometidos pelo então deputado federal Fábio Reis, mas as obras não se iniciaram.

Novamente em véspera de eleições, mais precisamente em janeiro de 2018, os reeleitos Jackson e Fábio voltaram assinar a promessa de restauro do prédio, no valor de R$500 mil. As obras não andaram e em julho deste ano o Ministério da Cultura confirmou uma nova verba, cujo o foco inicial – utilizando apenas R$38 mil – seria manter a edificação em pé e, basicamente, torná-la funcional. As obras seguem sem previsão de início.