Foto de O Papa-Jaca

Referência nacional no ensino em Saúde, o campus Lagarto da Universidade Federal de Sergipe (UFS) produz semestralmente inúmeros trabalhos científicos provenientes de trabalhos de pesquisa, extensão e trabalhos de conclusão de curso – os chamados TCCs.

“Para que haja Soberania Alimentar a população deve decidir seu próprio sistema.”

Liberado na última semana, o estudo “Agrotóxicos: Percepção de consumidores do Mercado Municipal de Lagarto” não é o primeiro a ser publicado com exclusividade pelo O Papa-Jaca. Em junho, o site trouxe duas pesquisas que mostravam que o uso isolado de bebida alcoólica é a principal causa de dependência em Lagarto. Foi mostrado, por exemplo, que quando associada a outras drogas, o número aumenta de 30,4% para cerca de 85% dos entrevistados.

Desta vez, uma análise – feita pelo acadêmico em Nutrição Hary Braz, sob orientação da Prof. Dra. Adriana Souza – revelou que 92% dos entrevistados no mercado público da cidade prefeririam pagar mais caro por um alimento que fosse livre de agrotóxicos. A amostragem contabilizou a opinião de cem consumidores.

Agricultores em roça do povoado Santo Antônio. (Foto: Anna Fernanda/PEL)
Agricultores em roça do povoado Santo Antônio. FOTO: Anna Fernanda/O Papa-Jaca

Além disso, 90% deles reconhecem saber o que são agrotóxicos; ao passo em que 91% afirmam que estes trazem malefícios à saúde humana. Segundo a ANVISA, um terço dos alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros estão contaminados e dentre esses alimentos contaminados e 28% apresentam componentes não autorizados ou em quantidade que excede o limite autorizado. Somente entre 2007 e 2014, 34,1 mil intoxicações por esses produtos foram notificadas ao SUS – Sistema Único de Saúde.

Apesar da polêmica em torno do assunto, 86% dos entrevistados na pesquisa lagartense relataram “não saber nada” sobre o Projeto de Lei (PL) 6299/02 – a PEC do Veneno, que regulamenta a liberação progressiva de mais agrotóxicos no agronegócio nacional. Ademais, 63% afirmaram ser possível diminuir os resíduos tóxicos da casca dos alimentos, mas nenhum soube descrever uma forma eficaz de como efetuar o processo.

“O difícil acesso às feiras orgânicas, o desconhecimento sobre o ‘PL do Veneno’ e as práticas pouco eficazes para diminuir os resíduos tóxicos dos alimentos, impendem que ocorra a garantia (…) do Direito Humano à Alimentação Adequada. Para que haja Soberania Alimentar a população deve decidir seu próprio sistema alimentar, de produção saudável e culturalmente adequada, o que não acontece no Brasil graças à intoxicação da fauna e flora causada pelo modelo de produção convencional, a alta permissividade do uso de agrotóxicos dada pelo atual governo e a falta de fiscalização”, alerta o texto científico em sua conclusão.

Água mortífera

Em abril, O Papa-Jaca ganhou destaque ao divulgar um estudo da Agência Pública e da organização suíça Public Eye, mostrando que Sergipe tem 15 municípios com rede de abastecimento de água contaminada por, pelo menos, 27 tipos de agrotóxicos, que podem causar doenças graves, a exemplo de câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Entre as cidades contaminadas, está Lagarto, onde todos os 27 venenos foram achados.

Mapa mostra o espectro das cidades afetadas. PRINT: O Papa-Jaca

O estudo também teve como base dados do próprio Ministério da Saúde e do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento. O “coquetel” que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017, totalizando mais de 1,3 mil municípios. De lá pra cá, nenhuma medida foi tomado pelo Poder Público para reverter minimamente o quadro.