Ninguém imagina o mundo sem mentiras. A prática de inventar histórias, distorcer fatos e negar o óbvio se perpetua no tempo e no espaço. Na era da internet, sobretudo, a difusão de falsidades tomou proporções planetárias. Em poucos segundos, uma postagem fantasiosa se espalha pelo mundo sem filtros nem freios.

A proliferação de mentiras adquire importância maior quando voltada para a política. Recentemente, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) acusou os filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de comandarem uma rede formada por 1,5 mil perfis falsos nas redes para difundir fake news e atacar adversários.

Pela agressividade e por agir no submundo, essa turma ganhou o apelido de milícia virtual. Quem acompanha a atuação de seguidores de Bolsonaro nas redes sociais e em grupos privados tem razões para, no mínimo, desconfiar que a parlamentar aponta uma pista importante para entender como funciona esse exército de internautas.

“O Papa-Jaca não é e não será o único alvo.”

Desde a campanha eleitoral de 2018, invenções como kit gay e mamadeira de piroca se tornaram peças de propaganda voltadas para o público moralista e desinformado. Antes, na época do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), em março de 2018, ficou evidente a existência de uma máquina de fabricar mentiras. Uma das falsidades espalhadas atribuía a eleição de Marielle ao apoio da organização criminosa Comando Vermelho.

Ultimamente, a política em Lagarto tem mostrado uma face ainda mais grotesca que a do mero clientelismo. Agora, os coronéis e seus jagunços modernos trabalham de maneira organizada para destruir reputações e promover linchamentos virtuais. A tática é combater a verdade com a mentira – através da desmoralização, ao invés da bala e do sangue.

Principal rede dos milicianos digitais é o WhatsApp. IMG: The Intercept

Diferente da milícia bolsonarista, a coronelista mantém um perfil arcaico. Isto é, sem os chamados ‘robôs digitais’ e com trabalho em troca de cargos. No entanto, ambas se assemelham ao terem em suas fileiras militantes travestidos de cidadãos comuns. As ações são constantes, mas funcionam de maneira muito mais organizada quando o grupo se vê ameaçado.

Desde janeiro, quando O Papa-Jaca iniciou suas publicações – semanas após o editor Danniel Prata se demitir de um portal da cidade que apagou suas postagens por censura – a rede lagartense de milicianos virtuais começou a compartilhar imagens pessoais do jornalista sempre que uma denúncia explodia.

“Nosso trabalho é a prova de que não vendemos nossa opinião.”

Parecia haver muito mais uma intenção de intimidação. Na época, reportagens como o conteúdo exclusivo das denúncias criminais do GAECO contra Valmir Monteiro (PSC) e a evolução patrimonial em quase 400% do deputado federal Fábio Reis (MDB) iam ao ar.

Logo em seguida, o tom passou aumentar e a família de Prata findou sendo exposta. A estratégia era nova e significava passar a imagem de um indivíduo desestabilizado que era brigado “com a mãe e com o pai”, berravam em grupos de WhatsApp. Foi a primeira mentira divulgada em massa.

Fake news compartilhada em reação contra reportagem que mostrou associação de político com criminoso condenado e procurado. IMG: Reprodução

Não demorou muito e as matérias do O Papa-Jaca incitaram os agrupamentos a especularem um suposto financiamento. Quando alguma reportagem repercutia fato envolvendo os Ribeiros – como a denúncia de nepotismo na Secretaria de Saúde, o site era acusado de associar-se com o PT. Quando uma notícia falava dos Reis ou dos Monteiros, os Ribeiros eram os financiadores.

Em julho, Danniel foi aprovado em Direito na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Sem dinheiro para fazer ao menos a matrícula, a Assistência Social do município aceitou colaborar com 70% do valor da passagem aérea. Desde então, o dado – disponível no Portal da Transparência – tem sido utilizado como a prova cabal de que as notícias feitas sobre as investigações do escândalo de laranjas do MDB Sergipe foram encomendadas.

A tese sequer se sustenta. Na verdade, na última semana – quando o site mostrou que o chefe de uma suposta organização criminosa, já condenado por estelionato, foi secretário parlamentar de Jerônimo Reis entre 2007 e 2009 – o político sequer se explicou; aliados do mesmo disseminaram a mesma fake news, porém, sem a afirmação de que o pagamento seria uma encomenda de matérias. Que fique claro: Temos posição, somos tendenciosos, assim como todo veículo de comunicação. Nosso trabalho é a prova de que não vendemos nossa opinião.

O Papa-Jaca não é e não será o único alvo. É preciso que a população esteja atenta para não se ver refém, a nível local, dos mentirosos que mobilizaram o Brasil nas eleições de 2018. No ano passado, o movimento foi para tomar o poder. Por aqui, a reação é para manter-se, o que torna a cena muito mais grave. A informação é o melhor remédio, sempre ouse desconfiar.

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