Foto de O Papa-Jaca

O crime não compensa. Muito difícil apontar quem teria sido o autor desta expressão. Fato mostra, sobretudo, quão antigo é o termo e sua aplicação no cotidiano. Até o século passado, o Brasil se viu mergulhado na perseguição de crimes cometidos apenas por pobres e negros das periferias. A maior prova disso é o número de afro-brasileiros nos presídios – 61,7% da população carcerária são de pretos ou pardos.

No alvorecer do século XXI, com o amadurecimento da Constituição recém-refeita após 1989, a criação de diversos dispositivos anticorrupção e o fortalecimento das estruturas judiciais e policiais, a Justiça passou a bater na porta dos gigantes intocáveis do país.

“Para eles, já fui Monteiro, já fui Ribeiro e já fui Reis – porém, não fui de ninguém.”

No entanto, os lugares menos desenvolvidos do Brasil seguiram, por um tempo, distantes de recuperar seu patrimônio roubado por décadas. Tradicionalmente, o Nordeste é visto como principal reduto de políticos coronéis e os chamados ‘industriais da seca’ – palavras do escritor Antônio Callado (1917-1997).

O eleitorismo nordestino é movido por um ciclo vicioso que remonta ao período colonial e à primeira república, quando era comum o favorecimento das elites pelas ações governamentais. De fato, estas elites locais manipulam a distribuição das verbas concedidas pelos fundos de combate às desigualdades, remanejando as pessoas e propriedades de seus interesses, geralmente onde possuem redutos eleitorais, afilhados e parentes. Nesse processo, é muito comum o peculato, praticado com o uso de enormes quantidades de verbas públicas para custear a contratação de empreiteiras e empresas diversas – geralmente ligadas às referidas elites.

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Acontece que este emaranhado de políticos e empresários fariam de tudo para se manter no poder – beberiam até sangue de unicórnio, utilizando a linguagem da literatura infanto-juvenil. Em 2018, a organização internacional Artigo 19 divulgou um estudo apontando o Nordeste como líder brasileiro em violação, ameaças de morte e mortes de jornalistas.

“O crime de falar é pior, para eles – mas dizer o que não é dito nunca fez a PF bater em minha porta.”

Todavia, antes de qualquer atentado, ferir a honra de indivíduos que apenas exercem sua profissão é o caminho primeiro. Já não bastando as ondas de fake news nas últimas eleições e a perseguição constante ao trabalho da imprensa nacional, mentem sobre sua família, sua profissão, sua vida e tudo que é possível.

Em Lagarto, isto ainda é visível em pleno 2019. O Papa-Jaca assumiu, ao surgir, o compromisso de ser um veículo de comunicação não meramente publicitário, mas político, investigativo e técnico. Com dados, números, estudos e fatos investigados dentro e fora do meio político. Temos posição, como qualquer imprensa séria, e é preciso haver o devido respeito constitucional.

Desde que as primeiras matérias atingiram o ninho do agrupamento dos Reis, o berço dos Monteiros e a administração dos Ribeiros, cada um, a seu tempo, nos jogou com acusações nos braços do outro. Para eles, já fui Monteiro, já fui Ribeiro e já fui Reis – porém, não fui de ninguém. Além disso, acham sempre que um deles financia nosso trabalho.

Em montagem, aliados tentam estabelecer elo entre ajuda-de-custo para matrícula em faculdade, com financiamento de trabalho. IMAGEM: Reprodução

O grave não é o achar, mas o afirmar. Nesta quarta-feira (2) a Polícia Federal revisitou Lagarto. O site foi o primeiro da cidade a noticiar o cumprimento dos mandados de busca e apreensão na casa da saramandaia Marleide Cristina (MDB). Ainda que o fato não seja de responsabilidade da imprensa, mas da Justiça e, principalmente, dos próprios acusados, é primordial para eles que ninguém saiba que eles cometeram crimes.

Para garantir isso, misturam informações para desmerecer a verdade. Somente nesta tarde já divulgaram que (1) Danniel Prata recebeu dinheiro da Prefeitura para fazer uma “trama urdida” contra Marleide. Neste ponto, o próprio marqueteiro de Marleide, Cícero Mendes, divulgou em seu portal – O Bolo é Grande – que Prata teria sido pago para fazer as denúncias; com erros ortográficos, fatos omitidos e sem direito de resposta. Além disso, (2) que a Polícia Federal não achou nada na casa de Cristina e, por isso, Danniel pode ser preso.

“Nos resta sentir pena.”

Por ocasião da prisão de Valmir Monteiro (PSC), em fevereiro, diversas dessas mentiras foram repetidas à exaustão. Algumas ressurgiram em momentos específicos ao longo do ano, como a de que Prata seria alguém desestabilizado e sem contato com a família. “Por que você não fala com seu pai?”, berravam em grupos de WhatsApp em tom que mais parecia estarem na terceira pessoa do singular.

Já ‘Urubu financiado pelo Partido dos Trabalhadores (PT)’ foi o adjetivo escolhido por uma parcela dos aliados dos Ribeiros quando as reportagens sobre nepotismo na Secretaria de Saúde e de interferência politiqueira na Secretaria de Educação foram publicadas.

O crime de falar é pior, para eles. Ser apedrejado em praça pública virtual por dizer o que não era dito, é o moralmente correto. Ter uma opinião inegociável e sem preço é uma anormalidade gigantesca. No entanto, roubar não é condenável, na verdade, os ratos têm até empatia entre si.

Aparentemente, todos estes estão psicologicamente atormentados por suas coleções de condenações por improbidade administrativa e, futuramente, no caso de alguns, peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita etc. Nos resta sentir pena.