É preciso ser bastante tolo para acreditar em mais um conto de quem dialogue com a anti-democracia. Jair Bolsonaro (PSL), um fascista na prática e, sobretudo, nas ideias, indicou pela primeira vez desde o início do Governo Lula, em 2003, um nome à Procuradoria Geral da República (PGR) fora da lista tríplice.

Aos leigos, a lista em questão é uma iniciativa de órgãos, como a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), para “conferir caráter democrático à escolha do PGR”. Os três nomes mais votados são enviados à Presidência para enfim ocorrer a escolha. Desde 2003 o primeiro da lista é indicado; no Governo Temer a ordem foi alterada, sendo escolhida a atual procuradora-geral, Raquel Dodge, que foi a segunda mais votada; Bolsonaro reinaugurou a retirada da autonomia do Ministério Público e, por consequência, sofreu retaliações nacionalmente.

Chamo Rogério categoricamente de tolo por dizer “simpatizar” com alguém que – além de ter sido escolhido fora do procedimento democrático – aceitou e foi indicado justamente por outrem que é conhecidamente defensor da Ditadura e a favor de uma justiça seletiva contra seus oponentes. Vale a reflexão de que, no momento, Bolsonaro está em pé-de-guerra com seu ministro da Justiça por conta do filho que é investigado – imagina qual não deve ser o caráter da escolha de Augusto Aras ao cargo.

Mas, no que Rogério acreditou? Em entrevista à Veja nesta quarta-feira (12), o senador lagartense diz que Aras mostrou ser alguém que defende o Ministério Público como “um instrumento para representar os interesses da sociedade e garantir que isso tudo seja feito a partir da Constituição, sem ativismos, excessos de protagonismo e a mistura que temos visto entre Judiciário, Ministério Público e polícia”.

Ainda que isso fosse definitivamente verdade, o caminho para se chegar neste objetivo não deve ser optar por um nome externo à decisão democrática. Ser favorável a esta escolha é preferir atalhos sob o risco de aprofundar o Brasil numa crise institucional com características iliberais e visivelmente ditatoriais. Não existe diálogo possível com não-democratas e o PT tradicional não precisa de novas lições práticas para entender isso. Aguardaremos ansiosamente o posicionamento final.