Um dos consolidadores do coronelismo em Lagarto – sendo mais específico, fundador do grupo Bole-Bole e responsável pela nomeação do agrupamento rival, o Saramandaia – Rosendo Ribeiro Filho jamais será esquecido na política local.

“Fomos uns tolos.”

Ainda numa semana de luto, vale um resumo de sua trajetória política: Eleito em 1958 como vereador, Rosendo teve o apoio do lagartense e então governador Dionísio Machado. Na eleição seguinte, ascendeu ao posto de prefeito, ficando no cargo durante o ano inaugural da Ditadura Militar, a qual ele apoiou. Já em 1967, se elege ao cargo de deputado estadual e, ao assumir a presidência da Assembleia Legislativa de Sergipe (ALESE) – no ano seguinte – teve seus direitos políticos cassados. A partir daí passou a atuar nos bastidores, na manutenção de seu agrupamento.

Neste momento, a chaga do filhotismo se intensifica. A política já não se pautava mais pelo mérito ou competência. Não que antes tivéssemos a sorte de pautá-la assim, mas, desde então, além do apadrinhamento, do mandonismo e da bipolarização do município, ocorreu a erradíssima normatização deste estado.

Um momento conhecido foi o apadrinhamento direto de Ribeirinho – como ficou conhecido Ribeiro Filho – a um de seus irmãos caçulas, José Raimundo Ribeiro, o popular Cabo Zé. Este se tornara vereador com apoio de um deputado federal e foi convidado pelo irmão, então prefeito, a concorrer à deputado estadual. A campanha foi um sucesso.

A imagem mais clara da divisão novelesca em Lagarto, teria se revelado quando Rosendo e Arthur Reis – também apoiado por Dionísio – participaram da mesma legislatura na ALESE. Assim como nos dias de hoje, a política se resumia a pão e circo. As falas nos palanques, fossem eleitorais ou na tribuna da Câmara de Vereadores ou da Assembleia, eram meramente provocativas. Sem querer reincorrer no erro da generalização, mas eram também sem projeto definido.

A única parte boa ao observar o quadro geral, foram as boas risadas gravadas nas memórias dos mais velho, já que hoje nada disso tem mais graça. De fato, haviam pitadas de desenvolvimento. A citar obras da época de Ribeirinho, para saudá-lo em espírito, temos: A Caixa d’Água, o antigo Mercado Municipal e a histórica praça Filomeno Hora – com uma escultura idêntica ao do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra, no Rio de Janeiro. No entanto, apesar de muito para o pouco que a cidade detinha, era muito pouco (sic) diante do potencial desenvolvimentista lagartense.

A questão é que as características dessa estrutura nem são o ponto de destaque, mas, sim, seus trágicos resultados. Estamos falando de uma cidade cuja economia segue quase-feudal de tão ultrapassada. Parte gigantesca dos empregos em Lagarto estão nas mãos da Administração Pública. A maior parte do capital, inclusive, é movimentado por esta e, quando não, por parte de agricultores que dependem do dinheiro gerado pelo Poder Municipal – seja de maneira direta, comprando seus produtos, ou indireta, através dos salários pagos aos consumidores que trabalham para o Município. Toda essa potência poderia ser utilizada para atrair investimento, mas é utilizada para controlar as massas. Isto sem contar o assistencialismo eleitoreiro das políticas públicas sem eficiência demonstrada, o modelo de educação ainda do século XIX etc.

As pouquíssimas indústrias e empresas pertencem à jurássica burguesia local, que também participa dessa estrutura política. Além do mais, o que mais cresce são as atividades do setor terciário. Este, servindo em grande escala apenas aos que possuem capital para usufruir dos seus serviços e, mesmo assim, são concentrados em sua maioria pelo comércio varejista – com mão de obra precária e constante fluxo de demissões e recontratações. Nada disso com potencial de desenvolver uma economia moderna.

Todavia, o choro não é um lamento unicamente nosso. Antes de morrer, Rosendo soube fazer a dura e ignorada autocrítica: “Fomos uns tolos”. A intensa disputa pelo poder, para Ribeirinho, em entrevista à SBT em 2010, nos fez perder tempo. “Nós somos uns bobos, porque nós não deveríamos ter nos encrencado, [devíamos] ter se unido por Lagarto”, diz em fala já trêmula por conta do Mal de Parkinson e carregada de tristeza.

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