Verborrágico, aos que desconhecem seu significado, segundo um dicionário qualquer que achei em ferramentas de busca na internet, é a “pessoa que usa uma quantidade excessiva e geralmente irritante de palavras para dizer coisas de pouco conteúdo ou sem importância”. Considero a definição perfeita, de maneira que não há nada que descreva melhor a avaliação que faço do ex-prefeito Cabo Zé.

No sábado posterior à vinda do senador Alessandro Vieira a Lagarto, publiquei um texto de opinião ressaltando as multifacetas da política lagartense. Na ocasião, diante do dito arauto da nova política em Sergipe, ressaltei que múmias resolveram buscar abrigo na pirâmide da renovação do parlamentar. “Das múmias políticas presentes, a mais antiga era Cabo Zé”, escrevi.

“Em suma, fonte luminosa não mata fome.”

Horas depois, o radialista resolveu ‘falar a verdade’ (sic) em seu programa de rádio. Disse que esperava que o “pobre rapaz com ideias que não merecem credibilidade” – no caso, eu – chegasse “à idade da múmia”. Além de achar que o adjetivo que utilizei dizia respeito ao seu tempo de vida na Terra, o ex-deputado pretendeu se explicar do que chamou de “fofocas banais”, em entonação digna de comício.

As ditas fofocas seriam os mais de 60 processos a qual José Raimundo Ribeiro acumulou, ao longo da vida como se fossem prêmios, junto ao Tribunal de Contas do Estado. Na explicação também verborrágica, Cabo afirma que o processo – no singular – diz respeito a uma rodovia construída em sua gestão e que Jerônimo Reis – também ex-prefeito, porém, cassado por ter contratado funcionários fantasmas – teria dito que ele não construiu e, por isso, o Ministério Público “me pegou e me apenou”.

Isto é, como se não bastasse a omissão em relação aos processos julgados irregulares e de improbidade, no valor total atual de cerca de R$10 milhões, envolvendo sua gestão superestimada (1993-1996), Zé opta por minimizar o caso – sem contar o escândalo de bilhões de cruzeiros na reforma da praça Filomeno Hora. A declaração do ex-gestor ofende a Justiça e a própria função do Ministério Público. Não creio que seja preciso elencar os motivos. Sendo assim, Cabo não apenas transparece omissão, como se permite aparentar mentiroso. Ou a foto dele se exibindo com o título recuperado não é a demonstração mais óbvia de que ele chegou a perder, efetivamente, os direitos políticos por algum motivo que não vem do além?

Cabo Zé e, ao fundo de dois estudantes, Itamar Santana. FOTO: O Papa-Jaca

No conjunto da fala, ele não desce do palanque. Trata o texto opinativo publicado como se tivesse algum caráter partidário – argumento este que não apresenta o mínimo de lógica – e coloca a mim como um adversário político (risos). Ao me tratar como adversário, ele cumpre o seu melhor número de teatro: a quebra da quarta parede. Ou seja, o também ex-deputado se dirige a mim, tendo como alvo o ouvinte e, então, chovem discursos, como “ocupe os espaços que ocupei” e “saiam e vejam as obras do Cabo Zé”.

Já ao final, o ex-prefeito declarado ímprobo resolve gabar-se de suas “fontes luminosas”. Enquanto as fontes encantavam o olhar burguês municipal, a população padecia. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), na segunda metade da década de 90, Lagarto tinha 81,31% de sua população ou pobre, ou extremamente pobre. Em 2010, ano da última medição, esse número caiu para 38,7%.

Naquele período, 74% das crianças de 0 a 5 anos estavam fora da escola e 21% dos jovens entre 15 e 24 anos não estudavam e nem trabalhavam. O número mais surpreendente é o de crianças extremamente pobres: Em 1991 a taxa era de 37,4%, ao final da década esse dado subiu para 40,7%. O número caiu para 16,8% em 2010.

Políticas públicas

Vale ressaltar que os números não se referem somente ao período em que Cabo Zé chefiou o Município, mas não deixam de apresentar um panorama preciso de qual era a realidade da cidade. Em suma, fonte luminosa não mata fome. Somente as políticas públicas – como Bolsa Família – introduzidas no país, posteriormente, foram capazes de mudar o cenário brasileiro e lagartense, de acordo com o próprio PNUD em 2010.