Fotos de O Papa-Jaca

Estou convicto de que ignoramos o presente por sermos ignorantes em relação ao passado. Um exemplo é que o movimento crescente de atentar-se à política nacional não é outra coisa senão o temor do retorno daquilo que um dia já foi. Da esquerda à direita, o sonho de um Brasil não é possível, ao imaginário, de outra forma que não seja sabendo o que fomos e o que somos.

Lagarto procrastinou esse debate. Será muito mais difícil, hoje, num universo pós-moderno, criar uma noção de identidade coletiva – que gere um sentimento de pertencimento – do que há uma década. No entanto, postergar seguirá sendo pior. Eu, enquanto indivíduo, sou incapaz de me importar com uma problemática local a qual não pertenço, apenas coexisto. Este, talvez, seja o diagnóstico mais preciso sobre a doença que a cidade ainda enfrenta. Se pertenço mais ao mundo ou qualquer outro lugar, via internet ou qualquer outro meio, do que aonde estou, sentirei as dores do além com mais facilidade.

“Mas como pode um município desatento possuir interesses?”

No ano passado, em setembro, um levante de jovens conseguiu reunir algumas centenas de pessoas de todas as idades na praça Filomeno Hora para uma caminhada contra o então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro. O inverso também ocorreu de maneira semelhante. No entanto, o que pretendo ressaltar aqui é que não é menos impossível direcionar o olhar para Brasília do que para cá. Quando utilizo o exemplo do foco dado à política nacional, claro que não estou isolando Lagarto do contexto Brasil, na verdade, é o próprio debate que já não inclui o município de maneira direta.

A consequência seguinte, que já é real, é a indignação que só segue existindo se me atingir. Se for a minha rua que não estiver asfaltada, se for o meu poste que estiver quebrado, se for a minha escola sem merenda. A população da Cidade Ternura vai se individualizando e permitindo cada vez mais ‘tipinhos’ ou mesmices na condução de seus interesses. Mas como pode um município desatento possuir interesses? Sim, seus anseios são abstratos. Os únicos interesses concretos e atendidos, então, são os dos próprios ‘tipinhos’ – que acabam imprimindo no povo seu caráter egoísta. Logo, o lagartense desatento que troca emprego ou qualquer outra coisa por voto, nasce do político que lava dinheiro público e vice-versa. Para este, mais importa seu emprego em seu universo individual, do que a boa gestão do erário municipal.

Em editorial de 23 de fevereiro, disse: Como não lembrar – se existem ainda aqueles que se importam – das histórias sobre o velho Dionísio Machado, aquele que “andava nas noites [de Lagarto] olhando as lâmpadas que estavam queimadas e as ruas que precisavam de reparos”. Embora sua biografia permaneça recôndita no debate, o ideal messiânico de um novo Dionísio segue no imaginário da sociedade papa-jaca e, enquanto ele não chega, a cidade se vende em troca de esmolas e a política lagartense definha como uma velha viciada em cocaína. Trecho inicial resume o que sigo pensando sobre o comodismo vivido por aqui e em todos os recintos onde a experiência identitária não tenha sido experimentada.

Grupo folclórico da cidade em atividade com estudantes. FOTO: Milo/O Papa-Jaca

Esse estilo de burrice, já alimentou processos diversos mundo afora. Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt se pergunta pela dinâmica responsável pela adesão aos regimes totalitários. Segundo ela, a desarticulação de certos vínculos sociais converter-se-iam no afrouxamento dos vínculos propriamente políticos, esgarçando os laços de pertencimento a uma comunidade política, ao invés de a uma sociedade, de fato. É neste “vazio” de pertencimento identitário, acompanhado do consequente enfraquecimento de sentido da experiência do social – em termos de Arendt, do “isolamento” e da “superfluidade” – que se circunscreveria um espaço propício à articulação da maquinaria totalitária. Cabe ressaltar que não enxergo a dinâmica coronelista de outro modo que não autoritária – ou iliberal no contexto do século XXI.

As próprias famílias que dominam Lagarto, a dominam desde o regime militar e tem um modus operandi característico na disputa política: O pensamento contrário define, automaticamente, os lados – parafraseando discurso do professor Benizário Júnior. Por consequência da iliberalidade, os privilégios se concentram aos fiéis e, estes fiéis, mantém o domínio dos de cima. O aprofundamento da democracia só acontecerá quando for buscado e este, somente será, quando houver o consenso de que somos parte de um meio que precisa de transparência e democracia.

“Do ponto de vista da organização que funciona segundo o princípio de que quem não está incluído está excluído, e quem não está comigo está contra mim, o mundo perde todas as nuances, diferenciações e aspectos pluralísticos – coisas que, afinal, se haviam tornado confusas e insuportáveis para as massas que perderam o seu lugar e sua orientação dentro dele.” (ARENDT, 2000, pp. 430-431).

Como já dito, o ponto de origem deste cenário, absolutamente, é o desconhecimento também coletivo, causado ou herdado, sobre a história, as tradições e a cultura papa-jaca. Por que me importo mais com o Museu Nacional e a Catedral de Notre-Dame, do que com o prédio do antigo Grupo Escolar Silvio Romero, vítima do fogo há menos de um ano? A resposta, poderia ser, mas não é o tempo dos monumentos ou a religiosidade por detrás do seu conteúdo. É apenas ignorância.

Esta indignação precisa começar a ser difundida, e sobretudo sentida, pela mídia local, pelos artistas locais, pelos professores que aqui atuam e pelos ditos influenciadores digitais lagartenses. Essa consciência atrasada precisa encontrar seu lugar no cotidiano e passar a ser motivo de debate nos locais de trabalho e, se possível, nos círculos familiares de todo e qualquer munícipe. Se este chamado ao pertencimento não for atendido, Lagarto morrerá sufocada, mas dopada de pão e circo.

“O lagartense desatento que troca emprego ou qualquer coisa por voto, nasce do político que lava dinheiro público e vice-versa”

A não ser que hajam vontades escusas por parte da burguesia local na continuidade deste modelo fajuto de política, este não será um manifesto somente às classes operárias lagartenses. Empresários, onde está a lagartinidade? Pertencimento não é entretenimento e, muito menos, se resume a Vaquejada. Descapitalizem a mente.

Juventude, não sejam como nossos mães e pais. E pais e mães, por favor, incentivem nossos jovens.

Por último, o grito vai aos covardes, medrosos e preguiçosos. Não podemos ficar escondidos esperando por um arauto que faça daqui um lugar decente em diálogo, acolhimento e trabalho. Vocês são os únicos que estão faltando para a mudança de paradigma ocorrer. Porém, ela já começou.