Publicado em 23 de fevereiro

Como não lembrar – se existem ainda aqueles que se importam – das histórias sobre o velho Dionísio Machado, aquele que “andava nas noites [de Lagarto] olhando as lâmpadas que estavam queimadas e as ruas que precisavam de reparos”. Embora sua biografia permaneça recôndita no debate, o ideal messiânico de um novo Dionísio segue no imaginário da sociedade papa-jaca e, enquanto ele não chega, a cidade se vende em troca de esmolas e a política lagartense definha como uma velha viciada em cocaína.

Num retrato da sala-de-estar da história, a cidade vendeu sua alma por carismas e alguns feijões dos almoços coletivos dos coronéis. Mas a confirmação do óbvio nos deixa perplexos: “Ainda somos os mesmos e vivemos”, nas palavras de Belchior. Ter em nosso álbum um prefeito preso deveria nos encaminhar à seguinte pergunta: ‘Que caminho trilhamos para termos chegado até aqui’? Gostamos do pouco. Não podemos esquecer que essa estrada já vacila desde os jurássicos Reis e Rocha – condenados por improbidade administrativa e por fazer da Prefeitura um cabide de funcionários fantasmas.

Charge ‘Prioridades’, de Fifi ao O Papa-Jaca.

Nas esquinas mais populares é possível ver políticos masturbando seu mini-ego com a ignorância do conterrâneo pobre e a classe-média lagartense comendo como gado aquilo que os pretensos Dionísios ofertam. A Alta Lagarto, apesar de rica, se tornou cínica e se envolve numa atmosfera de intensa falsidade e desconfiança. Não existe debate, mas meros selvagens. O município parou no século XX e segue apática à espera do Cristo de cada eleição. Se um dia existiu, não há mais propostas e projetos, mas apenas lados.

Nada mais é visto em outro cenário que não seja o do dinheiro e o do poder. A juventude se expande demograficamente, porém, permanece anárquica frente a uma política que insiste no filho de ‘A’ ou ‘B’ – isto inclui Reis, Rochas, Ribeiros e Monteiros. Ao mesmo tempo em que ganha corpo essa mesma juventude não vê motivo para conhecer-se enquanto lagartenses e, com isso, ou se envenena no panem et circenses, ou simplesmente segue excluída das tomadas de decisão.

“Ter em nosso álbum um prefeito preso deveria nos encaminhar à seguinte pergunta: ‘Que caminho trilhamos para termos chegado até aqui?'”

O problema que se mostra é estrutural e tem como centro as oligarquias que se apropriaram da coisa pública desde que surgiram – diga-se de passagem na Ditadura Militar – e dão a Lagarto a saída única de manter-se uma sociedade feudal e, ao mesmo tempo, de castas muito bem definidas. Entre estas, a mais próxima de um pária – às vezes lembrado como moeda eleitoral – é o trabalhador assalariado, a mulher que é mãe solteira e diarista, a aluna do povoado que só quer estudar e o miserável boêmio.

A terra de Silvio Romero e Laudelino Freire é também a cidade que mais viola e assassina transsexuais no estado, que tiveram todos os seus gestores desde a redemocratização alvos em esquemas de corrupção, que demite sem justa causa mais de 70% dos seus trabalhadores, desindustrializada, que acumula notas IDEB abaixo do civilizado, que se deixa levar pelo sentimentalismo na política, que não inclui o patrimônio histórico no Orçamento e se centraliza na monocultura de uma raiz [mandioca] achando que Ciência e Tecnologia irão sair do chão.

Lagarto precisa parar de esperar por um Messias e se deixar reinventar. Entender que nosso saldo negativo não são de compras do agora e que, por isso, o futuro está diretamente ligado ao presente. Lagarto precisa parar de se prostituir, voltar a criar identidade e debater seus problemas reais. A não ser que opte por continuar sendo apenas votos em urnas eletrônicas e ter sua história manchada pela corrupção de populistas.